O Governo do Rio Grande do Sul vem divulgando uma série de investimentos na reestruturação do estado pós-enchente de 2024, incluindo a reforma da rede de monitoramento hidrológico. Para entender se essas obras contemplam as necessidades do estado na iminência de um forte El Niño, o Sul21 conversou com o professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS) Fernando Meirelles.Ex-diretor do departamento de recursos hídricos do estado, Meirelles ajudou a implantar a rede de monitoramento hidrológico com a qual o Rio Grande do Sul contava até 2018 e que começou a se deteriorar já em 2019. O professor pontua que, de 2024 até agora, o estado não teve redução da sua vulnerabilidade no que diz respeito ao monitoramento.As obras em execução pelo governo se desdobram entre a recuperação das estações de monitoramento da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema) e a implantação de novas estações da Defesa Civil.“O IPH pediu a recuperação da rede de monitoramento, e então veio uma nova proposta de rede que a Defesa Civil está projetando. Não é a mesma rede que foi deixada no final do governo Sartori, é menor. Não pega todo o território que pegava a rede antiga”, afirma Meirelles. “E ainda está em implantação. Então, talvez passemos de novo por um evento de chuva intensa e não tenhamos o registro adequado da precipitação, levando a uma tomada de decisão mais difícil”.Procurada pelo Sul21, a Sema informou que os novos equipamentos da Defesa Civil são monitorados por uma empresa especializada, a Qualle Control (antiga MKS). Os dados seguem em processo de calibração, conforme a ocorrência de eventos climáticos nas regiões monitoradas. Após essa etapa, as estações serão registradas oficialmente junto à Agência Nacional de Águas (ANA), assim como as estações da Sema.Conforme a pasta, o Estado conta hoje com 139 estações de monitoramento hidrometeorológicos em pleno funcionamento, mais um radar meteorológico. A rede cobre as 25 bacias hidrográficas do Estado. O Governo do Estado lançou, em março deste ano, a plataforma ClimaRS. O sistema integrado reúne, em um único ambiente digital, informações oficiais sobre condições meteorológicas, níveis dos rios e alertas de risco. Com acesso público, a ferramenta permite o acompanhamento em tempo real das condições hidrológicas no Estado, além da visualização em tempo real do nível dos rios e o cadastro para recebimento de alertas da Defesa Civil.A Sema acrescentou que a rede é composta por centenas de estações para além das que são mantidas pela própria secretaria e pela Defesa Civil. As hidrelétricas, por exemplo, possuem estações de monitoramento conectadas ao sistema por meio da ANA.Segundo Meirelles, originalmente a rede própria do estado era composta por 160 estações: 40 doadas pela ANA, que mediam chuva e nível dos rios; e 120 adquiridas pela Sema, das quais 60 mediam chuva e nível dos rios e lagoas e 60 só mediam a chuva. Mas a Sala de Situação montou um sistema que recebia as informações das estações automáticas das usinas hidroelétricas, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), da extinta Fundação Estadual de Pesquisa Agropecuária (Fepagro), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), de Santa Catarina, do Uruguai e da Argentina, somando mais de 600 estações automáticas.O professor afirma que, durante os eventos de chuva extrema que acometeram o estado em 2023, a rede hidrometeorológica entregue em 2018 já tinha estações que não funcionavam. “É muito duro ver o que aconteceu com a rede e todo o sistema que tinha sido implantado. Ficamos sem muitas informações durante a cheia de 2024”, relembra.Atualmente, o portal nacional Hidroweb – que alimenta a plataforma ClimaRS, da Sema – mostra 130 estações da Sema, que estão em operação mas não têm dados disponíveis. “Não há acesso aos dados, seja porque não estão transmitindo, seja porque não funcionam e essa desativação não foi informada. Fiz uma avaliação durante a enchente e a maioria não estava funcionando”, ressalta Meirelles. “Seria um retrocesso ter uma plataforma estadual que não se comunique com o Hidroweb, que permite que Uruguai e Argentina tenham acesso aos dados livremente”.O professor do IPH afirma, ainda, que “não tem lógica as estações da Sema estarem em processo de calibração”, como informou a pasta. “Isso é feito antes da instalação. O radar, sim, precisa de calibração”, acrescenta Meirelles.Outro problema, como pontua o especialista, é que as obras de reconstrução têm sido executadas como políticas de governo, e não de estado – ou seja, a troca de gestão não garante a continuidade das políticas públicas. Em 2017, por exemplo, o professor coordenou a elaboração de uma política estadual de gestão de riscos e desastres, que até hoje não foi implantada. “Se nós tivéssemos uma política estadual, estaríamos muito melhor em termos de redução da vulnerabilidade, tanto em estiagens quanto em enchentes”, salienta o especialista.“Falta é uma visão política da questão”, acrescenta. “Durante a enchente de 2024, nós vimos muita solidariedade, mas sem uma organização. Não podemos ficar nesse amadorismo. O governo federal deu um apoio muito grande para o Fundo Rio Grande, mas o que estamos fazendo são várias ações de forma isolada. Não vejo o restante da sociedade envolvida nas discussões”. Meirelles também alerta para a improbabilidade de o governo concluir todos os investimentos até o final do mandato – e antes do El Niño, que pode começar em setembro. “Não se consegue fazer tudo em quatro meses. E, sendo um plano de governo, e não de estado, dependendo de quem ganhar a eleição vai parar tudo”, afirma.