As plataformas de redes sociais devem estabelecer mecanismos para detectar e mitigar riscos de interferência indevida na integridade de processos democráticos, inclusive em eleições. Esse é um dos pontos destacados pelo documento “Diretrizes para a Regulação de Plataformas de Redes Sociais”, elaborado pelo CGI (Comitê Gestor da Internet). O documento estabelece parâmetros sobre a responsabilidade das empresas por conteúdos de terceiros, limites ao uso de inteligência artificial, regras de transparência algorítmica e combate a abusos de mercado e é um guia para orientar novos projetos de lei e subsidiar decisões do Congresso Nacional, do Judiciário e de órgãos reguladores.Sobre as eleições o documento recomenda “vedar e monitorar práticas como monetização e impulsionamento e anúncios de conteúdo antidemocrático e de canais contumazes ou reincidentes nesse tipo de conteúdo e a contratação de disparos em massa em rede social de mensagens”. Além disso, defende “vedar, em contexto eleitoral, estratégias de uso enganoso de mecanismos de buscas e monitorar e mitigar riscos de cibersegurança, como invasão ou comprometimento de contas e perfis de participantes de processos eleitorais, democráticos ou institucionais do Estado brasileiro”.A assessora de políticas públicas digitais do CGI, Julia Oms explica que o modelo das plataformas digitais é baseado no engajamento com o público e com a publicidade. “Por isso, numa das diretrizes de responsabilidade, a gente coloca que você deve ter um regime de responsabilidade diferenciado e gradativo para conteúdos que são monetizados, porque o CGI entende que a monetização que a plataforma permite está inserida em uma lógica de incentivo das plataformas à produção desse conteúdo. Dessa forma, uma medida de prevenção de conteúdos danosos seria interromper a monetização de conteúdos desinformativos e com potencial de danos relacionados à desinformação climática, ao funcionamento de processo político democrático e à saúde pública”, explicou.A interrupção de monetização é recomendada para casos onde existe uma dúvida sobre o conteúdo, quando não se tem dúvida, a recomendação é a remoção.Uma das condições importantes para a regulação é que as plataformas mantenham representação legal ou escritório próprio no Brasil se o serviço for ofertado ao público brasileiro. “Fatores que podem ser considerados para orientar tal condição são a quantidade de usuários brasileiros, a existência de relações comerciais com brasileiros e a presença de conteúdos ofertados em Língua Portuguesa”, orienta a cartilha.O professor de Políticas Públicas da UFABC (Universidade Federal do ABC), Sérgio Amadeu afirma que as plataformas da Meta têm regras obscuras e uma gestão invisível. “ Nós podemos estar, na verdade, vivendo um momento, no qual, conteúdos da extrema direita possam estar sendo muito mais distribuídos do que conteúdos das forças democráticas. Então, como que você vai provar que existe o mínimo de equanimidade, o mínimo de condições básicas da democracia na distribuição desses conteúdos? Nós não temos como saber como eles estão sendo, manipulados, modulados ou organizados pelos donos da plataforma”, enfatizou.Autor do livro “Democracia e os Códigos Invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas”, Amadeu afirma que a regulação é fundamental para se ter o mínimo de condições similares entre quem disputa os mandatos. “É preciso ter condições mínimas de equidade. Isso é a base da democracia. A equidade e a transparência e não existe isso nas plataformas”.