Uma mulher de 41 anos é morta a facadas dentro de casa em Porto Alegre. O autor do crime é um homem, companheiro da vítima, também de 41 anos. Ela deixa dois filhos. A vítima não tinha medida protetiva e não fez denúncia contra o companheiro, apesar de ter sofrido violência doméstica. O autor é preso em flagrante e tem a detenção convertida em prisão preventiva, onde aguarda julgamento.Esse é o retrato construído a partir dos casos de feminicídios ocorridos entre 1º de janeiro e 30 de junho de 2026, conforme levantamento exclusivo feito pelo Sul21. A partir do registro de dados sensíveis a cada uma das 42 ocorrências, foram traçados dois perfis – da vítima e do autor do crime – com o objetivo de identificar as similaridades e as diferenças em cada um dos casos.O retrato, embora trace uma linha que perpassa todos os casos, esconde particularidades sobre cada uma das vítimas. São vidas de mulheres, interrompidas entre 15 e 77 anos em todos os cantos do Rio Grande do Sul por uma ação premeditada de ódio ao gênero feminino.Não se sabe a cor da vítima. Ainda que a aferição da cor ou raça seja possível no registro da ocorrência criminal, através de autodeclaração ou da observação fenotípica, tais registros nem sempre são feitos. Dentre os delegados e as delegadas da Polícia Civil questionados durante a realização deste levantamento, a informação não foi suficientemente respondida para que seja possível traçar um perfil racial.Também fica escondida uma cadeia de violências que precedem o feminicídio, que, na maioria das vezes, não são registradas diante das autoridades policiais ou que são relativizadas na publicização dos feminicídios. Cerca de 45% das mulheres mortas não possuíam denúncia feita contra os agressores, enquanto pelo menos 38% tinham. Os 17% restantes não foram confirmados pelas respectivas investigações.O mesmo ocorre com a concessão de medidas protetivas. Apenas nove das 42 vítimas tinham medida protetiva ativa no momento do feminicídio, o que corresponde a cerca de 21% das mulheres mortas. Pelo menos 23 vítimas (55%) nunca requisitaram uma medida protetiva contra os feminicidas.Quatro delas haviam solicitado medidas anteriormente, que estavam inativas quando o crime ocorreu. Nos demais seis casos, não foi possível confirmar se o autor do crime esteve sob medida protetiva em qualquer momento do relacionamento.O feminicídio ocorrido em Esteio em 17 de março, em que Claudio Francisco Davi da Silva, 60 anos, esfaqueou a ex-companheira de 39 anos na casa dela é sintomático no que diz respeito à eficácia dessa política de enfrentamento à violência contra a mulher. A vítima chegou a solicitar medida protetiva no mês anterior ao crime, no entanto, a determinação não estava ativa porque Claudio não foi encontrado pelo oficial de justiça para receber a intimação.O próprio número de feminicídios registrados no primeiro semestre de 2026 é impreciso. De acordo com a Secretaria da Segurança Pública do Estado do RS (SSP-RS), são 41 as vítimas. Já a ONG Lupa Feminista contabiliza 50 mulheres mortas por razões de gênero no mesmo período.As metodologias divergem, porém o levantamento em que se baseia esta reportagem conta 42 feminicídios por entender que a ocorrência do desaparecimento e morte suposta de Silvana Germann de Aguiar, 48 anos, junto de seus pais, Dalmira Germann de Aguiar, 70 anos, e Isail Vieira de Aguiar, 69 anos, representa um caso de duplo feminicídio.Inicialmente, a investigação da Polícia Civil de Cachoeirinha – cidade da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA) em que o crime ocorreu – indiciou o ex-companheiro de Silvana, Cristiano Domingues Francisco, por duplo homicídio e feminicídio. Contudo, o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) entendeu posteriormente que a morte da mãe também se enquadra na definição do crime de feminicídio, já que ocorreu como maneira de ocultar um crime de ódio ao gênero feminino.Justamente em razão do caso da família Aguiar, o número de feminicidas é inferior ao de ocorrências. São 41 pessoas: 40 homens, entre 17 e 78 anos de idade, e uma mulher. O episódio ocorrido em Ijuí, noroeste do estado, em que Maria Fernanda Morais Quevedo, 29 anos, matou a companheira a facadas no dia em que ela sairia da casa em que moravam para escapar das ameaças de morte sofridas é o único caso de assassinato em relacionamento lésbico tipificado como feminicídio registrado no Rio Grande do Sul em 2026.