Notícia SINASEFE IFSul

19 de junho 2026

O que dizem os pré-candidatos ao Piratini sobre a instalação da CMPC em Barra do Ribeiro

O que dizem os pré-candidatos ao Piratini sobre a instalação da CMPC em Barra do Ribeiro A instalação de uma fábrica da CMPC Celulose em Barra do Ribeiro, cidade vizinha a Guaíba, tem motivado debates às vésperas da eleição para governador do Rio Grande do Sul. Não à toa: o projeto de R$ 27 bilhões é considerado o maior investimento privado da história do estado. Por outro lado, o Ministério Público Federal (MPF) questiona o licenciamento ambiental do “Projeto Natureza”, como é chamado o complexo fabril.Esta semana, empresários e autoridades – entre eles o prefeito de Barra do Ribeiro – fizeram uma manifestação a favor da instalação da fábrica. O local escolhido foi em frente ao Palácio Piratini, sede do novo governo a partir de 2027. Em seus últimos meses de mandato, o governador Eduardo Leite (PSD) aproveitou a oportunidade para assegurar que “não trabalha com a hipótese de perder o investimento”. A maioria dos possíveis sucessores ao cargo pensam parecido, como apurou o Sul21.Em nome da pré-candidata Juliana Brizola (PDT), quem falou com a reportagem foi o coordenador de campanha, ex-deputado Vieira da Cunha. “Juliana tem dito e repetido que ela entende que a questão do respeito ao meio ambiente pode e deve conviver com a política de atração de investimentos. Nós somos favoráveis a investimentos que geram empregos, que geram renda, como é o caso deste. Não há possibilidade de se colocar contrário a um investimento desta magnitude, e com todas as suas consequências positivas no que diz respeito ao processo de impulsionamento econômico do estado. Isso não quer dizer que estejamos avalizando qualquer medida que possa causar impacto negativo à preservação do meio ambiente”, pontuou.A posição foi manifestada também em uma nota pública datada de 28 de maio, assinada pela pré-candidata, seu vice Edegar Pretto (PT) e os pré-candidatos ao Senado Paulo Pimenta (PT) e Manuela d’Ávila (PSOL). No texto, a aliança se compromete a “apoiar iniciativas que promovam a geração de trabalho, renda e oportunidades, respeitando os marcos legais e os princípios de responsabilidade social e ambiental”. “Há um processo de licenciamento em curso que vai garantir que esse investimento seja feito de acordo com a legislação de proteção ao meio ambiente. O estado atravessa uma dificuldade enorme, que só vai ser possível superar se nós dinamizarmos o processo de desenvolvimento do estado”, defendeu Vieira da Cunha. “Não queremos aumentar impostos, queremos incrementar o processo de desenvolvimento econômico do RS a fim de aumentar a receita para atender à população”.Dividindo com Juliana o topo das pesquisas, o deputado Luciano Zucco (PL) se manifestou por meio de nota. “Sou a favor do projeto da CMPC. É um investimento histórico de R$ 27 bilhões, com previsão de 12 mil empregos. Até mesmo os líderes indígenas, que foram a justificativa para o MPF travar o projeto, se disseram contrários à suspensão do licenciamento. Nosso estado tem a fama de afugentar empresas e o caso da CMPC, com toda essa confusão jurídica, tem se tornado mais um símbolo”, afirma.O pré-candidato refere-se ao fato de que, em março deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a suspensão imediata do licenciamento ambiental do Projeto Natureza, até que as comunidades indígenas locais fossem devidamente ouvidas. Em maio, o órgão ajuizou uma ação civil pública com o objetivo de garantir que o licenciamento ambiental respeite os direitos de populações tradicionais. O MPF aponta que o processo avançou sem a ocorrência de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) das comunidades de pescadores artesanais, indígenas e quilombolas da região, uma exigência da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e um direito assegurado pelo Artigo 231 da Constituição Brasileira.Embora colunas jornalísticas recentes tenham informado que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) deu um “aceno favorável” à instalação da CMPC, o órgão emitiu uma nota afirmando ser “errônea” qualquer informação que atribua à autarquia apoio ao empreendimento ou ao licenciamento ambiental do complexo fabril previsto para Barra do Ribeiro.“Quero liderar o resgate da confiança nesse estado. Não podemos perder R$ 27 bilhões da CMPC porque um procurador resolveu inventar uma tese”, defende Zucco. “O Rio Grande é o estado que menos cresceu nos últimos 20 anos, não temos mais tempo para errar. A segurança jurídica é um tema de Estado e, por isso, é um tema do governador. Será minha prioridade. Só atrairemos investimentos se formos um estado confiável”.O pré-candidato finaliza sua manifestação afirmando que, se eleito, irá “colocar o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade para andar lado a lado”. Para isso, a proposta é “tornar os processos de licenciamento ambiental mais ágeis, modernos e racionais, equilibrando eficiência econômica com responsabilidade e proteção ao meio ambiente”.Por outro lado, a pré-candidata do PSTU, Rejane Oliveira, é totalmente contra a implantação do Projeto Natureza. “Não podemos permitir que uma empresa possa chegar no RS, contaminar a água, e a população achar que isso pode ser bom. Ouvimos de outros pré-candidatos que não podemos abrir mão do investimento, mas podemos abrir mão da vida das pessoas? Esse é o debate que queremos fazer”, ressaltou. “Defendemos a proibição de uso de agrotóxicos, e não somos favoráveis a nenhum tipo de investimento que envenena o solo, a água, o meio ambiente, que coloca em risco a vida das pessoas”.Para Rejane, a contrariedade à instalação da CMPC não significa ir contra o desenvolvimento do estado. “Nós podemos pensar em desenvolvimento, mas não podemos continuar crescendo de forma predatória. Isso não significa deixar de crescer, porque as necessidades da população são muitas. É necessário construir casas, escolas, hospitais. O debate é sobre para quem produzir. Nós queremos produzir para que as famílias, as pessoas, a comunidade do RS tenha a possibilidade de receber um bom desenvolvimento, que faça o RS crescer com capacidade, qualidade e saúde”.O pré-candidato Marcelo Maranata (PSDB) é também ex-prefeito de Guaíba, município que sedia uma planta industrial de celulose desde 1975, adquirida pela CMPC em 2009. Em nota enviada ao Sul21, ele se mostra amplamente favorável à instalação da nova fábrica. “Justamente porque, por já terem uma planta importantíssima em Guaíba, conheço profundamente a qualidade dos processos e a responsabilidade da empresa”, afirma.“Por diversas vezes, fui o único entre os pré-candidatos ao governo presente nas manifestações na Barra do Ribeiro. Levanto esse tema em todos os debates e já fui a Brasília fazer audiências sobre o tema. Para nós, que já perdemos a Ford no passado pelo descaso do PT, seria uma tragédia perder de novo agora algo ainda maior”, destaca Maranata.O ex-prefeito de Guaíba diz que, durante seus dois mandatos à frente da cidade, os investimentos foram tratados com responsabilidade econômica, social e ambiental. “O equilíbrio é fundamental e nos permitiu ser a cidade de maior atividade econômica de todo o estado em 2025”, enfatiza.O vice-governador Gabriel Souza (MDB), que agora é pré-candidato a governador, defende a instalação do novo complexo fabril em Barra do Ribeiro. “Esse investimento não chegou por acaso. Foi resultado de anos de trabalho do atual governo para atrair a empresa, melhorar o ambiente de negócios e criar as condições necessárias para que o projeto fosse viabilizado no estado.  Ao mesmo tempo, tenho convicção de que o licenciamento ambiental deve seguir rigorosamente a legislação e respeitar os direitos das comunidades envolvidas. Mas, uma vez cumpridas todas as exigências legais e ambientais, como entendemos ser o caso deste empreendimento, é fundamental garantir segurança jurídica. Não podemos passar a mensagem de que, mesmo seguindo as regras, um investimento continuará sujeito a incertezas”, diz a nota enviada à reportagem.De acordo com Gabriel, o Rio Grande do Sul “não precisa escolher entre desenvolvimento e preservação ambiental. As duas coisas podem – e devem – caminhar juntas”. A nota aponta para os seguintes dados: “Em 2024, o estado recebeu mais de R$ 100 bilhões em investimentos privados e, em 2025, mais de R$ 90 bilhões. Antes de 2021, a média anual era de cerca de R$ 30 bilhões. Isso mostra que é possível atrair grandes empreendimentos mantendo responsabilidade ambiental, regras claras e segurança jurídica”.
Geração de empregos versus poluição do GuaíbaO fato é que parte da população de Barra do Ribeiro tem uma expectativa positiva quanto ao Projeto Natureza. Como mostrou o Jornal Já, o secretário de Desenvolvimento do município, Everton Antunes, estima que 1.200 empresas se instalaram ou estão se instalando na cidade desde que o empreendimento foi oficialmente anunciado, há dois anos.Mas a perspectiva de investimentos não deixa de preocupar entidades socioambientais, por diversos motivos. Entre eles, a localização do emissário de efluentes líquidos da fábrica — a 3,5 km de Belém Novo, na Capital, próximo de duas novas estações de captação e tratamento de água do Dmae —, além da vazão de efluentes, com substâncias tóxicas, em volumes acima do volume de efluentes de toda a cidade de Porto Alegre.Em entrevista ao Sul21, a engenheira química Alda Maria Corrêa, analista da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) aposentada, explica que a fábrica da CMPC de Guaíba já lança uma carga importante de contaminantes típicos de fábrica de celulose. Segundo a especialista, laudos mostram contaminação no lodo bruto da fábrica e em bioindicadores. “Eles, da CMPC, argumentam que o efluente lançado está em melhor qualidade que a água captada, então a pergunta é: por que não reciclam os efluentes?”, questiona.Alda pontua que a fábrica projetada em Barra do Ribeiro prevê 242 milhões de litros de efluentes contaminados por dia, equivalente ao consumo de água para abastecimento da população de Porto Alegre. No processo de branqueamento de celulose é usado o dióxido de cloro, que gera os chamados Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) nos efluentes. Acontece que o Brasil é signatário da Convenção de Estocolmo, comprometendo-se a reduzir, até a eliminação total, os POPs. “São poluentes que não tendem a se diluir na água, mas a se acumular em partículas em suspensão e nos sedimentos dos lagos e rios”, explica a engenheira química. Com a instalação da CMPC em Barra do Ribeiro, também seriam lançados poluentes como fósforo (216 kg ao dia) e nitrogênio amoniacal (4800 kg ao dia), causando o processo chamado de eutrofização: o crescimento de cianobactérias que causam odor e dificuldade no tratamento da água para consumo humano. “O Guaíba já está com má qualidade próximo à Região Metropolitana por conta do excesso de fósforo”, enfatiza Alda.Além disso, segundo a especialista, a avaliação do impacto ambiental do Projeto Natureza tem falhas estruturais. “O modelo utilizado não levou em conta o sedimento, que faz parte do corpo receptor de efluentes. Este aspecto é extremamente importante, justamente porque os compostos mais tóxicos tendem a aderir ao sedimento, acumulando-se por décadas e contaminando os organismos de fundo e depois microcrustáceos, algas e peixes, até chegar no consumo humano”, explica. Esses poluentes tóxicos, de acordo com Alda, se acumulam na gordura dos organismos de forma crônica. Em humanos, podem causar problemas imunológicos, desregulação hormonal e câncer.Isso sem falar da monocultura de eucalipto, que afeta o bioma Pampa, e da emissão de CO², calculada em 150 mil toneladas por ano devido ao transporte de matéria-prima e celulose exportada.“Não se tem notícias, no mundo todo, de um só corpo receptor de águas interiores receber efluentes de duas fábricas de celulose que, juntas, somam o lançamento de 394 milhões de litros por dia, equivalente em volume ao esgoto de uma população de 2 milhões de habitantes”, ressalta a engenheira química. “Com relação ao poder público, há um esforço grande com programas de despoluição do Guaíba. Implantar uma fábrica dessas está na contramão desses esforços”. Quanto à geração de empregos, Alda pontua que a alta se daria somente na fase de construção da fábrica. Durante a operação, estimam-se somente 1,4 mil vagas. Mas os impactos ambientais atingem diretamente, a médio prazo, o modo de vida dos cerca de 7 mil pescadores da região. “Este projeto causa mais danos sobre bens nobres, como boa qualidade e disponibilidade de água, dos peixes, do ar e do ecossistema, por conta da justificativa de alguns empregos”, conclui a especialista.Com todos os impactos ambientais em vista, a sociedade civil tem cobrado as autoridades sobre o licenciamento e a implantação da CMPC em Barra do Ribeiro. Em janeiro deste ano, representantes de entidades socioambientais protocolaram um pedido à Fepam para que sejam realizadas audiências públicas adicionais sobre a instalação da fábrica.No mês de abril, o Comitê Técnico de Análise e Questionamento do EIA – RIMA do Projeto Natureza cobrou medidas objetivas para que o processo de licenciamento ambiental obedeça critérios técnicos e tenha transparência. O megaempreendimento da empresa CMPC está em processo de obtenção da licença ambiental na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luís Roessler (Fepam).Já em maio, o mesmo comitê começou a entrar em contato com as pré-candidaturas ao Palácio Piratini para fazer um alerta sobre os riscos da instalação do empreendimento da CMPC. A expectativa era de que Juliana Brizola (PDT) resistisse à pressão de entidades como a Fiergs, Farsul e Fecomércio-RS, que são favoráveis ao projeto – o que não se concretizou, uma vez que a chapa mostrou apoio à instalação da nova fábrica.
Fonte: Sul 21 / Imagem: Fabiano Panizzi