A instalação de uma fábrica da CMPC Celulose em Barra do Ribeiro, cidade vizinha a Guaíba, tem motivado debates às vésperas da eleição para governador do Rio Grande do Sul. Não à toa: o projeto de R$ 27 bilhões é considerado o maior investimento privado da história do estado. Por outro lado, o Ministério Público Federal (MPF) questiona o licenciamento ambiental do “Projeto Natureza”, como é chamado o complexo fabril.Esta semana, empresários e autoridades – entre eles o prefeito de Barra do Ribeiro – fizeram uma manifestação a favor da instalação da fábrica. O local escolhido foi em frente ao Palácio Piratini, sede do novo governo a partir de 2027. Em seus últimos meses de mandato, o governador Eduardo Leite (PSD) aproveitou a oportunidade para assegurar que “não trabalha com a hipótese de perder o investimento”. A maioria dos possíveis sucessores ao cargo pensam parecido, como apurou o Sul21.Em nome da pré-candidata Juliana Brizola (PDT), quem falou com a reportagem foi o coordenador de campanha, ex-deputado Vieira da Cunha. “Juliana tem dito e repetido que ela entende que a questão do respeito ao meio ambiente pode e deve conviver com a política de atração de investimentos. Nós somos favoráveis a investimentos que geram empregos, que geram renda, como é o caso deste. Não há possibilidade de se colocar contrário a um investimento desta magnitude, e com todas as suas consequências positivas no que diz respeito ao processo de impulsionamento econômico do estado. Isso não quer dizer que estejamos avalizando qualquer medida que possa causar impacto negativo à preservação do meio ambiente”, pontuou.A posição foi manifestada também em uma nota pública datada de 28 de maio, assinada pela pré-candidata, seu vice Edegar Pretto (PT) e os pré-candidatos ao Senado Paulo Pimenta (PT) e Manuela d’Ávila (PSOL). No texto, a aliança se compromete a “apoiar iniciativas que promovam a geração de trabalho, renda e oportunidades, respeitando os marcos legais e os princípios de responsabilidade social e ambiental”. “Há um processo de licenciamento em curso que vai garantir que esse investimento seja feito de acordo com a legislação de proteção ao meio ambiente. O estado atravessa uma dificuldade enorme, que só vai ser possível superar se nós dinamizarmos o processo de desenvolvimento do estado”, defendeu Vieira da Cunha. “Não queremos aumentar impostos, queremos incrementar o processo de desenvolvimento econômico do RS a fim de aumentar a receita para atender à população”.Dividindo com Juliana o topo das pesquisas, o deputado Luciano Zucco (PL) se manifestou por meio de nota. “Sou a favor do projeto da CMPC. É um investimento histórico de R$ 27 bilhões, com previsão de 12 mil empregos. Até mesmo os líderes indígenas, que foram a justificativa para o MPF travar o projeto, se disseram contrários à suspensão do licenciamento. Nosso estado tem a fama de afugentar empresas e o caso da CMPC, com toda essa confusão jurídica, tem se tornado mais um símbolo”, afirma.O pré-candidato refere-se ao fato de que, em março deste ano, o Ministério Público Federal (MPF) recomendou a suspensão imediata do licenciamento ambiental do Projeto Natureza, até que as comunidades indígenas locais fossem devidamente ouvidas. Em maio, o órgão ajuizou uma ação civil pública com o objetivo de garantir que o licenciamento ambiental respeite os direitos de populações tradicionais. O MPF aponta que o processo avançou sem a ocorrência de Consulta Prévia, Livre e Informada (CPLI) das comunidades de pescadores artesanais, indígenas e quilombolas da região, uma exigência da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e um direito assegurado pelo Artigo 231 da Constituição Brasileira.Embora colunas jornalísticas recentes tenham informado que a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) deu um “aceno favorável” à instalação da CMPC, o órgão emitiu uma nota afirmando ser “errônea” qualquer informação que atribua à autarquia apoio ao empreendimento ou ao licenciamento ambiental do complexo fabril previsto para Barra do Ribeiro.“Quero liderar o resgate da confiança nesse estado. Não podemos perder R$ 27 bilhões da CMPC porque um procurador resolveu inventar uma tese”, defende Zucco. “O Rio Grande é o estado que menos cresceu nos últimos 20 anos, não temos mais tempo para errar. A segurança jurídica é um tema de Estado e, por isso, é um tema do governador. Será minha prioridade. Só atrairemos investimentos se formos um estado confiável”.O pré-candidato finaliza sua manifestação afirmando que, se eleito, irá “colocar o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade para andar lado a lado”. Para isso, a proposta é “tornar os processos de licenciamento ambiental mais ágeis, modernos e racionais, equilibrando eficiência econômica com responsabilidade e proteção ao meio ambiente”.Por outro lado, a pré-candidata do PSTU, Rejane Oliveira, é totalmente contra a implantação do Projeto Natureza. “Não podemos permitir que uma empresa possa chegar no RS, contaminar a água, e a população achar que isso pode ser bom. Ouvimos de outros pré-candidatos que não podemos abrir mão do investimento, mas podemos abrir mão da vida das pessoas? Esse é o debate que queremos fazer”, ressaltou. “Defendemos a proibição de uso de agrotóxicos, e não somos favoráveis a nenhum tipo de investimento que envenena o solo, a água, o meio ambiente, que coloca em risco a vida das pessoas”.Para Rejane, a contrariedade à instalação da CMPC não significa ir contra o desenvolvimento do estado. “Nós podemos pensar em desenvolvimento, mas não podemos continuar crescendo de forma predatória. Isso não significa deixar de crescer, porque as necessidades da população são muitas. É necessário construir casas, escolas, hospitais. O debate é sobre para quem produzir. Nós queremos produzir para que as famílias, as pessoas, a comunidade do RS tenha a possibilidade de receber um bom desenvolvimento, que faça o RS crescer com capacidade, qualidade e saúde”.O pré-candidato Marcelo Maranata (PSDB) é também ex-prefeito de Guaíba, município que sedia uma planta industrial de celulose desde 1975, adquirida pela CMPC em 2009. Em nota enviada ao Sul21, ele se mostra amplamente favorável à instalação da nova fábrica. “Justamente porque, por já terem uma planta importantíssima em Guaíba, conheço profundamente a qualidade dos processos e a responsabilidade da empresa”, afirma.“Por diversas vezes, fui o único entre os pré-candidatos ao governo presente nas manifestações na Barra do Ribeiro. Levanto esse tema em todos os debates e já fui a Brasília fazer audiências sobre o tema. Para nós, que já perdemos a Ford no passado pelo descaso do PT, seria uma tragédia perder de novo agora algo ainda maior”, destaca Maranata.O ex-prefeito de Guaíba diz que, durante seus dois mandatos à frente da cidade, os investimentos foram tratados com responsabilidade econômica, social e ambiental. “O equilíbrio é fundamental e nos permitiu ser a cidade de maior atividade econômica de todo o estado em 2025”, enfatiza.O vice-governador Gabriel Souza (MDB), que agora é pré-candidato a governador, defende a instalação do novo complexo fabril em Barra do Ribeiro. “Esse investimento não chegou por acaso. Foi resultado de anos de trabalho do atual governo para atrair a empresa, melhorar o ambiente de negócios e criar as condições necessárias para que o projeto fosse viabilizado no estado. Ao mesmo tempo, tenho convicção de que o licenciamento ambiental deve seguir rigorosamente a legislação e respeitar os direitos das comunidades envolvidas. Mas, uma vez cumpridas todas as exigências legais e ambientais, como entendemos ser o caso deste empreendimento, é fundamental garantir segurança jurídica. Não podemos passar a mensagem de que, mesmo seguindo as regras, um investimento continuará sujeito a incertezas”, diz a nota enviada à reportagem.De acordo com Gabriel, o Rio Grande do Sul “não precisa escolher entre desenvolvimento e preservação ambiental. As duas coisas podem – e devem – caminhar juntas”. A nota aponta para os seguintes dados: “Em 2024, o estado recebeu mais de R$ 100 bilhões em investimentos privados e, em 2025, mais de R$ 90 bilhões. Antes de 2021, a média anual era de cerca de R$ 30 bilhões. Isso mostra que é possível atrair grandes empreendimentos mantendo responsabilidade ambiental, regras claras e segurança jurídica”.