Notícia SINASEFE IFSul

1 de setembro 2026

Novo aplicativo promete expor contradições de candidatos, e também de eleitores

Novo aplicativo promete expor contradições de candidatos, e também de eleitores Diariamente, o eleitor é bombardeado por conteúdos milimetricamente desenhados para capturar a atenção por meio das emoções, dos afetos e da polarização. São cortes de vídeos manipulados, cards descontextualizados e campanhas de desinformação no WhatsApp. Neste cenário, a bolha algorítmica criou uma perigosa zona de conforto para os dois lados do balcão eleitoral: de um lado, políticos vendem ilusões; do outro, cidadãos abraçam rótulos ideológicos sem refletir sobre a aplicação prática de suas próprias crenças. Tomar uma decisão fundamentada passa por um desafio estrutural.Segundo o Instituto Reuters, redes sociais e vídeos (54%) já ultrapassaram a TV (52%) como a principal fonte de informação no Brasil. E quando 61% do eleitorado, conforme a Nexus, usa a internet para definir o voto, a vulnerabilidade democrática fica evidente. Nas redes, o político fala exatamente o que a sua base quer ouvir. No painel de votações do Congresso, porém, ele frequentemente aperta o botão oposto. O eleitor, por sua vez, vocifera por coerência, mas, não raro, defende posições práticas que desmentem a biografia ideológica que exibe nas redes. Desmascarar essa rotina de contradições é quase impossível para a maioria dos brasileiros. É nessa lacuna que a tecnologia cívica intervém, utilizando bases de dados oficiais como escudo e espelho.A tentação atual de muitos eleitores é terceirizar essa busca por coerência para assistentes de Inteligência Artificial. O risco, no entanto, é tamanho que o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou a Resolução nº 23.755/2026, vedando que provedores de IA ranqueiem candidatos ou emitam opiniões eleitorais automatizadas. Apesar da proibição legal, a IA comercial esbarra no viés de confirmação. Em vez de furar a bolha, ela frequentemente devolve uma resposta personalizada e dócil à expectativa de quem pergunta, operando em uma “caixa preta” sem links verificáveis ou políticas de correção.Uma nova ferramenta para combater esse caos informacional foi lançada oficialmente nesta segunda-feira (31). Trata-se do Meu Candidato, um aplicativo desenhado para traduzir o “tecniquês” de Brasília e expor a contradição política daqueles que têm e também de quem não tem mandato. A plataforma cruza a checagem rigorosa de declarações públicas (o fact-checking) com o histórico documentado do parlamentar no plenário. Ao ancorar sua base de dados sempre e exclusivamente em fontes primárias, o sistema devolve ao cidadão a segurança, a rastreabilidade e a confiabilidade que os algoritmos das redes sociais têm destruído.A escolha de batizar a plataforma como “Meu Candidato” para monitorar parlamentares com mandato em exercício possui uma razão pragmática: no pleito deste ano, nada menos que 85% dos deputados federais estão disputando as eleições — 80% tentam a reeleição direta para a Câmara e outros 5% concorrem a diferentes cargos. Na prática, auditar quem já está em Brasília é fiscalizar diretamente uma importante parcela dos nomes que estarão na urna eletrônica em outubro, além de permitir o exercício da cidadania e alimentar o debate público com informações de qualidade.A iniciativa é capitaneada pela AletheiaFact, organização da sociedade civil formalizada em 2022 por Tamiris Volcean e Mateus Santos. A divisão de liderança entre comunicação e tecnologia garante que a plataforma nasça com um rigoroso método editorial embutido no código. O modelo rendeu à organização o posto de finalista do prêmio WSIS, da ONU, por dois anos consecutivos, e a coordenação do Comitê Nacional da Democratização da Checagem de Fatos.Jornalista e pedagoga, Tamiris explica que, embora a interface do app caminhe para ser conversacional, o diferencial de valor não é a IA, mas a base de dados estruturada que a sustenta. “O registro de uma votação é um fato público e único. Ele não muda conforme o usuário, a sessão ou a formulação da pergunta. Mostramos o mandato inteiro, inclusive decisões que contrariam a expectativa de quem consulta. A IA pode operar a partir de recortes; nossa base preserva o contexto. Cada dado tem um link para a fonte oficial. Não entregamos apenas um texto fluente; entregamos uma informação que pode ser conferida”, defende.
Um teste à coerência do candidato e também do eleitorA arquitetura capaz de traduzir essa robustez para o eleitor comum coube a Mateus Santos, bacharel em Ciência da Computação e engenheiro de software na Wikimedia Foundation — organização sem fins lucrativos que abriga a Wikipédia e promove o ecossistema de conhecimento livre no mundo. Ele detalha que o aplicativo foi erguido, até aqui, por uma equipe técnica 100% voluntária. “Uma das principais funcionalidades permite que a pessoa decida como votaria em legislações reais e, a partir disso, descubra quem combinou com ela no Congresso. É um caminho de identificação pela prática legislativa, pelos votos de fato. Muitas vezes os candidatos estão fazendo concessões e votando em pautas com as quais você não concordaria, mas nas redes eles só compartilham o que é de interesse da pauta deles”, ressalta Mateus.O potencial interativo dessa funcionalidade (o recurso de Match) ficou evidente na primeira rodada de testes, quando a quebra das ilusões ideológicas gerou surpresa entre os usuários. Tamiris relata que eleitores declaradamente bolsonaristas descobriram que suas convicções práticas se alinhavam com parlamentares de centro-esquerda, enquanto progressistas convictos deram “match” com mandatos conservadores. “A nossa intenção não é dizer com qual candidato você combina, mas fazer o eleitor refletir sobre seus próprios posicionamentos, deixando de lado o viés automatizado que alimenta as bolhas”, pontua a pesquisadora, destacando o viés educativo e não apenas consultivo da ferramenta.Nesta fase inicial, a experiência já exibe o perfil do deputado federal com declarações checadas, o relatório de cada verificação e um índice de veracidade baseado em fontes originais. A meta, no entanto, é preencher os vazios do ecossistema atual: nas fases seguintes de atualização, o objetivo é incluir senadores, deputados estaduais e também candidatos sem mandato, além de sobreviver ao calendário eleitoral, acompanhando de forma contínua os quatro anos legislativos.Para superar a dependência do trabalho voluntário que marcou sua concepção e garantir que o Meu Candidato mantenha seu código aberto e independência frente a interesses corporativos, o projeto viabiliza sua expansão via financiamento coletivo no Catarse, com cotas a partir de R$30. O plano de longo prazo da organização — incubada no Parque de Inovação Tecnológica de São José dos Campos — prevê ainda um modelo híbrido sustentado por assinaturas institucionais e editais de fomento.
Outras plataformas para acompanhar de perto o CongressoA chegada do Meu Candidato encorpa um ecossistema de dados abertos que é vital ao debate público, à cidadania e, consequentemente, às eleições. Algumas dessas iniciativas já ativas funcionam como verdadeiros escudos contra a desinformação e merecem atenção especial pelas suas abordagens cirúrgicas.A primeira, de relevância ímpar para quem acompanha a política sob a ótica dos movimentos sociais, é a plataforma Quem foi Quem, mantida pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), órgão histórico de assessoria técnica e política vinculado aos sindicatos e trabalhadores brasileiros. O diferencial do sistema é aplicar um recorte temático transparente: ele monitora a atuação do parlamentar exclusivamente em projetos que afetam os direitos sociais, o serviço público e a legislação trabalhista. Como exemplo prático, o eleitor pode verificar graficamente se um deputado que discursa a favor da classe trabalhadora chancelou, no painel, reformas que suprimem direitos ou reduzem garantias previdenciárias. A principal utilidade da ferramenta é funcionar como uma bússola de classe, mapeando com exatidão quem defende direitos históricos e quem opera a favor do lobby corporativo.O segundo destaque é o Ruralômetro, desenvolvido pela Repórter Brasil — uma tradicional organização de jornalismo investigativo independente fundada em 2001. O diferencial da plataforma, a partir do jornalismo de dados, é o uso de um “termômetro” individual algorítmico em vez de planilhas complexas. A ferramenta cruza a autoria de projetos de lei, os votos em plenário e até infrações registradas no Ibama. Se um parlamentar atua a favor do desmonte de áreas de preservação ou contra a demarcação de terras indígenas, por exemplo, a sua “temperatura” no sistema sobe drasticamente. Para o cidadão preocupado com a crise climática e com Direitos Humanos, o Ruralômetro é vital por tornar o grau de ameaça ambiental de cada mandato visualmente mensurável.O terceiro pilar estrutural desse ecossistema focado é o Elas no Congresso, mantido pela Revista AzMina — uma organização jornalística sem fins lucrativos dedicada à investigação, defesa e promoção dos direitos das mulheres e da equidade de gênero no Brasil. O projeto faz um monitoramento sistemático e constante das pautas de gênero no legislativo, preenchendo uma lacuna histórica de fiscalização. Seu grande diferencial é mapear ativamente projetos de lei que afetam a vida, a saúde e os direitos das mulheres, classificando-os com base na avaliação de organizações especializadas da sociedade civil. Um exemplo de sua utilidade é revelar quando parlamentares e partidos tentam aprovar silenciosamente proposições que dificultam o acesso à saúde reprodutiva ou afrouxam punições para violência de gênero. É um serviço essencial para avaliar quem de fato trabalha pela equidade feminina no Congresso.Para facilitar o acesso, consolidamos abaixo um guia revisado com 9 plataformas ativas — incluindo o lançamento de hoje — para auditar o poder público e embasar o seu voto em outubro:
1. Meu Candidato (AletheiaFact)A lente: Coerência política e combate à desinformação.O serviço: Cruza declarações públicas checadas com o histórico de votos do parlamentar no Congresso, gerando um Índice de Veracidade. Baseia-se sempre em fontes primárias, garantindo total rastreabilidade e confiabilidade aos dados. Possui recurso interativo que estimula a reflexão crítica, rompendo ilusões ideológicas.Onde: Apple Store (deve estar disponível para Android nos próximos dias)
2. Quem foi Quem (DIAP)A lente: Direitos sociais e mundo do trabalho.O serviço: Bússola histórica de monitoramento do Congresso. Aplica um filtro cirúrgico sobre a atuação do parlamentar em temas como serviço público, leis trabalhistas e seguridade social.Onde:https://diap.org.br (atualizado em 2025)
3. Ruralômetro (Repórter Brasil)A lente: Direitos Humanos, terra e meio ambiente.O serviço: Avalia deputados federais cruzando votos, projetos de lei e infrações ambientais, elevando a “temperatura” de quem atua de forma predatória contra populações indígenas ou legislação de proteção.Onde: https://ruralometro.reporterbrasil.org.br (atualizado em 2022)
4. Elas no Congresso (Revista AzMina)A lente: Direitos das mulheres e equidade de gênero.O serviço: Monitoramento sistemático das pautas de gênero no legislativo. A plataforma mapeia projetos de lei que afetam a vida das mulheres, permitindo avaliar quem atua a favor ou contra esses direitos no Congresso.Onde: https://www.elasnocongresso.com.br/ (atualizado em 2025)
5. PollingDataA lente: Agregação estatística de intenção de voto.O serviço: Frente à habitual “guerra de pesquisas”, a plataforma compila múltiplos institutos e aplica modelagens matemáticas para neutralizar vieses metodológicos, traçando tendências eleitorais reais.Onde: https://flex.pollingdata.com.br (atualizado em 2026)
6. DivulgaCandContas (TSE)A lente: Transparência institucional e financeira.O serviço: O portal oficial da Justiça Eleitoral. É o repositório incontestável para investigar financiadores de campanha, baixar planos de governo e consultar certidões criminais.Onde: https://divulgacandcontas.tse.jus.br (atualizado em 2026)
7. Radar do Congresso (Congresso em Foco)A lente: Governismo e fidelidade partidária.O serviço: Mantido por um dos veículos independentes mais tradicionais na cobertura de Brasília. Entrega estatísticas puras, medindo, por exemplo, se o deputado que se diz oposição nas redes vota alinhado com o governo.Onde: https://radar.congressoemfoco.com.br (Atualizado em 2026)
8. Operação Política Supervisionada (OPS)A lente: Auditoria cidadã e controle do dinheiro público.O serviço: Não foca no mérito das votações, mas coloca uma lupa sobre a cota parlamentar. Permite rastrear notas fiscais, ajudando a expor reembolsos indevidos e empresas de fachada.Onde: https://institutoops.org.br (atualizado em 2026)
9. Ranking dos PolíticosA lente: Viés de mercado e redução do Estado.O serviço: Plataforma privada que ranqueia parlamentares com base em critérios estritamente liberais. Exige leitura crítica, pois bonifica o político que apoia privatizações e penaliza quem defende a presença estatal.Onde: https://ranking.org.br (atualizado em 2026)
Fonte: Sul 21 / Imagem: Marcelo Pires/Sul21