Diariamente, o eleitor é bombardeado por conteúdos milimetricamente desenhados para capturar a atenção por meio das emoções, dos afetos e da polarização. São cortes de vídeos manipulados, cards descontextualizados e campanhas de desinformação no WhatsApp. Neste cenário, a bolha algorítmica criou uma perigosa zona de conforto para os dois lados do balcão eleitoral: de um lado, políticos vendem ilusões; do outro, cidadãos abraçam rótulos ideológicos sem refletir sobre a aplicação prática de suas próprias crenças. Tomar uma decisão fundamentada passa por um desafio estrutural.Segundo o Instituto Reuters, redes sociais e vídeos (54%) já ultrapassaram a TV (52%) como a principal fonte de informação no Brasil. E quando 61% do eleitorado, conforme a Nexus, usa a internet para definir o voto, a vulnerabilidade democrática fica evidente. Nas redes, o político fala exatamente o que a sua base quer ouvir. No painel de votações do Congresso, porém, ele frequentemente aperta o botão oposto. O eleitor, por sua vez, vocifera por coerência, mas, não raro, defende posições práticas que desmentem a biografia ideológica que exibe nas redes. Desmascarar essa rotina de contradições é quase impossível para a maioria dos brasileiros. É nessa lacuna que a tecnologia cívica intervém, utilizando bases de dados oficiais como escudo e espelho.A tentação atual de muitos eleitores é terceirizar essa busca por coerência para assistentes de Inteligência Artificial. O risco, no entanto, é tamanho que o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE) publicou a Resolução nº 23.755/2026, vedando que provedores de IA ranqueiem candidatos ou emitam opiniões eleitorais automatizadas. Apesar da proibição legal, a IA comercial esbarra no viés de confirmação. Em vez de furar a bolha, ela frequentemente devolve uma resposta personalizada e dócil à expectativa de quem pergunta, operando em uma “caixa preta” sem links verificáveis ou políticas de correção.Uma nova ferramenta para combater esse caos informacional foi lançada oficialmente nesta segunda-feira (31). Trata-se do Meu Candidato, um aplicativo desenhado para traduzir o “tecniquês” de Brasília e expor a contradição política daqueles que têm e também de quem não tem mandato. A plataforma cruza a checagem rigorosa de declarações públicas (o fact-checking) com o histórico documentado do parlamentar no plenário. Ao ancorar sua base de dados sempre e exclusivamente em fontes primárias, o sistema devolve ao cidadão a segurança, a rastreabilidade e a confiabilidade que os algoritmos das redes sociais têm destruído.A escolha de batizar a plataforma como “Meu Candidato” para monitorar parlamentares com mandato em exercício possui uma razão pragmática: no pleito deste ano, nada menos que 85% dos deputados federais estão disputando as eleições — 80% tentam a reeleição direta para a Câmara e outros 5% concorrem a diferentes cargos. Na prática, auditar quem já está em Brasília é fiscalizar diretamente uma importante parcela dos nomes que estarão na urna eletrônica em outubro, além de permitir o exercício da cidadania e alimentar o debate público com informações de qualidade.A iniciativa é capitaneada pela AletheiaFact, organização da sociedade civil formalizada em 2022 por Tamiris Volcean e Mateus Santos. A divisão de liderança entre comunicação e tecnologia garante que a plataforma nasça com um rigoroso método editorial embutido no código. O modelo rendeu à organização o posto de finalista do prêmio WSIS, da ONU, por dois anos consecutivos, e a coordenação do Comitê Nacional da Democratização da Checagem de Fatos.Jornalista e pedagoga, Tamiris explica que, embora a interface do app caminhe para ser conversacional, o diferencial de valor não é a IA, mas a base de dados estruturada que a sustenta. “O registro de uma votação é um fato público e único. Ele não muda conforme o usuário, a sessão ou a formulação da pergunta. Mostramos o mandato inteiro, inclusive decisões que contrariam a expectativa de quem consulta. A IA pode operar a partir de recortes; nossa base preserva o contexto. Cada dado tem um link para a fonte oficial. Não entregamos apenas um texto fluente; entregamos uma informação que pode ser conferida”, defende.