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3 de setembro 2026

Morre Gloria Steinem, referência do feminismo e do jornalismo político

Morre Gloria Steinem, referência do feminismo e do jornalismo político Morreu nesta quarta-feira (2), aos 92 anos, a jornalista, escritora e ativista norte-americana Gloria Steinem, uma das principais figuras da segunda onda do feminismo nos Estados Unidos. A morte foi comunicada pela fundação que leva seu nome. A entidade informou que ela morreu em sua casa, em Nova York, cercada por pessoas próximas, mas não divulgou a causa.Ao longo de décadas, Steinem utilizou o jornalismo, a escrita e a atuação política para colocar no centro do debate público temas como igualdade entre homens e mulheres, direitos reprodutivos, violência doméstica e assédio sexual. Sua atuação também esteve ligada às lutas pelos direitos civis da população negra e contra a guerra do Vietnã.A fundação afirmou que Steinem permaneceu trabalhando pela igualdade até o fim da vida. Ela ainda tinha um novo livro de memórias previsto para ser publicado nos Estados Unidos neste mês.
Jornalismo como instrumento de denúnciaNascida em 25 de março de 1934, no estado de Ohio, Gloria Steinem teve uma infância marcada por dificuldades familiares.Aos 10 anos, acompanhou o divórcio dos pais e passou a conviver com os problemas de saúde mental da mãe. Mais tarde, ingressou na Smith College, onde começou a desenvolver o interesse pela política e pelo jornalismo.Depois da graduação, recebeu uma bolsa para estudar na Índia. Durante dois anos, colaborou com veículos locais e entrou em contato com princípios de mobilização social associados à atuação de Mahatma Gandhi. A experiência influenciou sua compreensão sobre organização política e participação popular.
Reportagem “A Bunny’s Tale”De volta aos Estados Unidos, trabalhou como freelancer para jornais e revistas. Em 1963, uma reportagem mudou sua trajetória profissional: “A Bunny’s Tale”.Para produzir a reportagem, publicada pela revista Show, Steinem se infiltrou como garçonete no Playboy Club. A experiência revelou as condições de trabalho e o tratamento machista enfrentado pelas mulheres empregadas no estabelecimento.A reportagem confrontou a ideia defendida pelo empresário Hugh Hefner de que a Playboy representava uma revolução sexual benéfica para homens e mulheres.O texto, escrito em formato de diário e baseado na própria experiência da jornalista, ganhou repercussão em um período de crescimento da mobilização feminista nos Estados Unidos.
A imprensa no centro da luta feministaA atuação de Steinem se fortaleceu no mesmo período em que a chamada segunda onda feminista* ganhava espaço. Ela passou a defender publicamente mudanças na legislação e nas relações sociais que limitavam a autonomia das mulheres.Em 1972, participou da criação da revista Ms., publicação que se tornou um dos principais espaços editoriais voltados às pautas feministas. A revista foi criada, dirigida e escrita por mulheres e levou para um público amplo assuntos que frequentemente eram ignorados pela imprensa tradicional.Entre os temas abordados estavam a descriminalização do aborto, a igualdade de direitos, a violência doméstica e o assédio sexual. A publicação teve forte impacto desde seu primeiro número: foram 300 mil exemplares vendidos em oito dias, além de milhares de assinaturas e cartas enviadas por leitoras.Antes disso, Steinem também havia participado da fundação da revista New York, na qual trabalhou como colunista política. Paralelamente, manteve participação em movimentos ligados aos direitos civis e à oposição à guerra do Vietnã.
Direitos reprodutivosA defesa dos direitos reprodutivos ocupou espaço central na trajetória política de Steinem. Ela atuou durante décadas em organizações que defendiam o direito ao aborto seguro e legal nos Estados Unidos.A pauta também estava relacionada a uma experiência pessoal. Aos 22 anos, Steinem passou por um procedimento clandestino de aborto. Anos depois, abordou o episódio em seu livro Minha Vida na Estrada, publicado em 2015, no qual escreveu sobre sua trajetória e dedicou parte da obra ao médico que realizou o procedimento.A partir dessa experiência, a jornalista passou a tratar o acesso à saúde reprodutiva também como uma questão de autonomia, direitos e igualdade social.
Organizações e participação políticaSteinem participou da criação de diversas organizações voltadas à ampliação da participação das mulheres na política e à defesa da igualdade de gênero. Entre elas estão o National Women’s Political Caucus, a Ms. Foundation for Women, a Women’s Action Alliance e o Women’s Media Center.Sua militância não se restringiu ao movimento feminista. Ela também esteve envolvida na articulação em defesa de Angela Davis, ativista negra que foi presa e acusada de crimes nos Estados Unidos. A atuação de Steinem nesse período demonstrou a aproximação entre diferentes pautas de direitos civis e justiça social.Ao longo da carreira, publicou livros como Outrageous Acts and Everyday Rebellions, Revolution from Within e Moving Beyond Words. Também participou de produções audiovisuais relacionadas a questões sociais, incluindo documentários e a série WOMAN, dedicada à violência contra as mulheres.
Reconhecimento e legadoA postura pública de Steinem também rompeu com expectativas sobre como uma militante feminista deveria se comportar. Sua presença na vida noturna de Nova York, suas roupas e seus relacionamentos com homens conhecidos eram frequentemente utilizados por críticos para questionar sua atuação política.Ela enfrentou ataques tanto de setores conservadores quanto de grupos que discordavam de suas posições dentro do próprio campo político. Ainda assim, manteve sua defesa da igualdade de gênero e dos direitos das mulheres.Em 2013, recebeu do então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a Medalha Presidencial da Liberdade, principal condecoração civil do país.A trajetória de Gloria Steinem ajudou a ampliar o espaço ocupado pelas mulheres no jornalismo, na política e no debate público. Ao transformar experiências pessoais em discussões sobre estruturas sociais, ela contribuiu para colocar questões antes tratadas como privadas no centro das disputas por direitos.Sua morte encerra uma trajetória de mais de sete décadas de atuação pública, mas deixa uma produção intelectual e política que continua presente nas discussões sobre igualdade de gênero, direitos reprodutivos, participação política e combate à violência contra as mulheres.
*O que foi a segunda onda feminista?A segunda onda do feminismo surge nos Estados Unidos e Europa Ocidental em meados da década de 1960, intensificando-se na década de 1970 e estendendo seus reflexos e debates até o início do século XXI. Posteriormente, houve a ciruculação dessas ideias para a América Latina – como em movimentos ligados a resistência às ditaduras militares – e também África, Caribe e Sudoeste Asiático.O termo foi cunhado pela feminista Martha Weinman Lear em um artigo de 1968 no jornal New York Times, usando a metáfora da “onda” para fazer referência às lutas anteriores pelo sufrágio, isto é, direito ao voto, e anunciar que outro momento de grande mobilização de mulheres estava se formando.
Contexto Histórico e SurgimentoApós a Segunda Guerra Mundial, período no qual milhares de mulheres assumiram postos de trabalho tradicionalmente masculinos, houve fortes campanhas para convencer as mulheres a retornarem às posições submissas e de “donas de casa”.Essas campanhas, no entanto, eram voltadas, sobretudo, para as mulheres brancas e de classe média, que tradicionalmente não trabalhavam. Mulheres pobre e negras, embora também fossem afetadas pelo discurso da separação dos papéis de gênero, trabalhavam por necessidade para sustentar filhos e família, exercendo, assim, uma dupla jornada de trabalho: em casa e fora.No década de 1960, transformações sociais profundas estavam em curso e elas se deram porn meio da educação, literatura e lutas sociais.Uma nova geração de mulheres instruídas passou a circular, e a publicação de textos, reportagens – como as de Gloria Steinem – e livros feministas explodiu. Obras como O Segundo Sexo (1949), de Simone de Beauvoir, e A Mística Feminina (1963), de Betty Friedan – que discutia o “mal que não tem nome” vivido pelas mulheres restritas ao modelo do lar –, foram fundamentais para esse despertar.Nos Estados Unidos, o movimento coincidiu com a luta pelos direitos civis. Já em países da África e do Caribe, as lutas contra o colonialismo levaram à organização de mulheres que passaram a questionar simultaneamente o sexismo e o racismo. Na América Latina, sob o jugo de golpes de Estado e ditaduras militares, a luta feminista esteve ligada à resistência democrática e à busca por melhorias nas condições de vida (como creches, transporte público e combate à carestia).A mobilização global fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) decretasse 1975 como o “Ano Internacional da Mulher” e estabelecesse a “Década das Mulheres” (1976-1985).
“O Pessoal é Político” e as Demandas PrincipaisA frase “O Pessoal é Político”, cunhada por Carol Hanisch em 1969, sintetizou a ideia de que as opressões vivenciadas no ambiente privado e doméstico estavam intimamente ligadas às desigualdades políticas gerais.Paralelamente, disseminou-se a ideia de sororidade e a expressão “a irmandade de mulheres é poderosa” (sisterhood is powerful), defendida por ativistas como Kathie Sarachild e Robin Morgan.As pautas desse período foram ricas e diversas: valorização do trabalho doméstico, igualdade salarial, direitos reprodutivos (acesso a métodos contraceptivos e aborto seguro), combate à violência doméstica, ao estupro, ao assédio e a luta contra a esterilização compulsória de mulheres negras e pobres.
Divisões Teóricas e a InterseccionalidadeTradicionalmente, a segunda onda é associada a três grandes linhas teóricas:
  • Feminismo Radical: Sustentava que a raiz de toda opressão estava no patriarcado, um sistema de dominação masculina em que a família e o papel da mulher na procriação eram as fontes primárias da subordinação feminina. Essa linha, nos dias atuais, está associada a difusão da transfobia.
  • Feminismo Socialista e Marxista: Apontava o capitalismo e o advento da propriedade privada como as bases da opressão, submetendo a mulher a uma tripla exploração (na reprodução humana, nas atividades domésticas gratuitas e na força de trabalho).
  • Feminismo Liberal: Consolidado nos anos 1980, focava em reformas jurídico-políticas para combater a desigualdade salarial, punir a violência e obter políticas estatais de apoio à maternidade e à liberdade individual.
No entanto, essa divisão clássica oculta a riqueza de outras perspectivas fundamentais que desafiaram a narrativa hegemônica de mulheres brancas de classe média:
  • Feminismo Negro e Latino: Apontava que os sistemas de opressão (racismo, sexismo e classe) operam de forma integrada. O Coletivo Combahee River (1974), por exemplo, defendia que a libertação das mulheres negras traria a liberdade de todas as pessoas, pois exigia o fim de todas as formas de opressão interligadas.
  • Feminismo Lésbico: Questionava a imposição da heterossexualidade como norma social, interpretando-a como um pilar de sustentação (“hetero-poder”) do patriarcado e do capitalismo.
  • Ecofeminismo: Formulava conexões entre a dominação das mulheres e a exploração destrutiva da natureza, promovidas por sistemas dualistas e hierárquicos de pensamento.


Fonte: TVT NEWS - Foto: gloriasfoundation.org

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