O Ministério das Relações Exteriores alertou oficialmente a Câmara dos Deputados para os riscos que a decisão dos Estados Unidos (EUA) de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pode trazer à soberania brasileira. Em documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira, o governo afirma que a medida adotada unilateralmente por Washington pode produzir consequências jurídicas, econômicas, diplomáticas e até militares para o Brasil. A resposta foi encaminhada ao deputado Evair de Melo (Republicanos-ES), em atendimento a um requerimento de informações aprovado pela Câmara, e representa uma das manifestações mais contundentes do Itamaraty sobre os efeitos da decisão anunciada pelo governo do presidente Donald Trump.No documento, o ministro sustenta que a classificação das facções criminosas como organizações terroristas não fortalece a cooperação internacional no combate ao crime organizado e, ao contrário, amplia os riscos de medidas unilaterais dos Estados Unidos contra cidadãos, empresas e instituições brasileiras.Em um dos trechos centrais do ofício, Mauro Vieira afirma:“A designação pode servir para que autoridades estadunidenses apliquem medidas administrativas e judiciais de caráter unilateral e extraterritorial contra pessoas, empresas ou organizações brasileiras, inclusive contra aquelas sem vínculos diretos com os EUA ou cuja ligação com os grupos designados seja indireta ou meramente involuntária.”Na sequência, o chanceler faz o alerta considerado mais grave pelo governo brasileiro:“Tal aplicação pode ocorrer com amplo grau de discricionariedade, dada a amplitude dos termos adotados na legislação de contraterrorismo daquele país, com sérias possibilidades de implicações para cidadãos brasileiros nos planos financeiro, migratório e penal. Finalmente, há a possibilidade do uso da força militar dos Estados Unidos em território brasileiro.”Mais adiante, o documento reforça a preocupação do governo federal ao mencionar novamente a possibilidade de ingerência norte-americana sobre o país.“A referida classificação unilateral poderia ser invocada como justificativa para ações extraterritoriais sobre instituições brasileiras, em particular no âmbito financeiro, migratório e penal. Há, ademais, o risco de uso da força militar dos EUA contra o território nacional.”