Em fevereiro, ao vivo na CEO Conference 2026 do banco de investimentos BTG Pactual, o senador e então presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que “grande parte das nossas estatais precisa ser privatizada” e disse que sua campanha iria “propor algo muito moderno” como contramedida ao “rombo do PT” em estruturas estatizadas. Flávio citou ainda um percentual: 95%. Esse seria o total de estatais da União privatizadas se dependesse dele.Oito meses depois, o tema das privatizações se tornou um assunto delicado na campanha de Bolsonaro, especialmente quando questionado sobre a possibilidade de venda da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Adolfo Sachsida, responsável pela parte econômica da campanha de Flávio, foi às redes sociais para garantir que “nenhuma dessas empresas será tocada”. “Não existirão privatizações de empresas”, afirmou Sachsida.Mas o passado do ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) indica justamente o contrário. Sachsida fazia parte da equipe de Paulo Guedes no Ministério da Economia durante o governo Bolsonaro. Guedes que, em reunião interministerial em 2020, esbravejou que era para “vender essa porra logo”, em referência ao Banco do Brasil.O mesmo Paulo Guedes que, em 2021, ressaltou que o plano para os próximos dez anos era “continuar com as privatizações”. “Petrobras, Banco do Brasil, todo mundo entrando na fila, sendo vendido e sendo transformado em dividendos sociais”, declarou o então ministro da Economia, para quem Adolfo Sachsida trabalhava.Guedes também foi o responsável por um corte de 37,8% nas estatais em quatro anos de governo Bolsonaro, segundo dados da Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). As principais privatizações foram da Eletrobras, da Transportadora Associada de Gás (TAG), da BR Distribuidora, da Liquigás e das docas do Espírito Santo (Codesa).Somado a isso, houve o desinvestimento nas empresas estatais que restaram, diminuindo a participação do Governo Federal no comando dessas estruturas. Sachsida esteve ao lado de Paulo Guedes em todas essas medidas de recuo da presença do Estado brasileiro.Mas não é só o passado que indica controvérsia entre o que diz atualmente e o que de fato deve fazer Flávio Bolsonaro, se eleito. No plano de governo do candidato do PL está prevista a retomada do Programa Nacional de Desestatização para avaliar “onde a presença do Estado deixou de fazer sentido”. Daniella Marques, do núcleo econômico da candidatura de Flávio, usa em entrevistas o argumento de que existem vinte estatais que geram um suposto custo de R$ 30 bilhões e que poderiam ser “tesouradas”.O professor Aragon Érico Dasso Júnior, da Escola de Administração da UFRGS e especialista em administração pública, explica o que acontece em uma privatização. A primeira distinção necessária é sobre o tipo de venda de uma estatal.A primeira forma é da concessão, como visto com frequência nas gestões de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Não é uma desestatização completa, e sim uma delegação do seu serviço para um entre privado, muitas vezes por um período determinado de tempo.A outra é, de fato, o fim da existência daquela instituição na máquina pública, que é a alienação. A alienação, segundo Aragon, traz uma injeção de capital em um período curto e fora do previsto no orçamento.Mas, o professor ressalta que dinheiro a mais nos cofres não significa maior capacidade de investimento. “Normalmente, ele [o dinheiro da venda] é aplicado em despesas ordinárias, não é investimento ou reinvestimento”, explica. “Não existe uma política de desenvolvimento a partir de privatizações. Todo mundo que fala sobre isso está mentindo, porque aquele dinheiro se exaure quase que imediatamente”.Em compensação, a função social da empresa estatal que ali existia antes da venda “desaparece”, como define Aragon. “O mercado vai ficar com aquilo que ele rende. Tudo que interessa à função social daquela empresa estatal anterior, desaparece”, comenta. “Deixa de ser um serviço público na finalidade social e passa a ser uma contraprestação financeira numa relação privada”.“Sempre que tu tiveres uma alienação, a lógica que está impregnada ali é o lucro. E o lucro, via de regra, na experiência brasileira, está associado a uma majoração de tarifa para o cidadão”, complementa Aragon, sobre os efeitos práticos de uma alienação de serviços públicos.Entretanto, há uma terceira possibilidade de negócio que não chega a ser uma privatização, mas que indica um caminho em direção à via privada: a sociedade de economia mista. Na visão de Aragon, esse modelo “já é o começo de uma privatização”.“Por que eu estou falando isso? Porque às vezes tu pode não estar privatizando a Caixa Econômica Federal, mas tu pode estar mudando o tipo societal dela. Ela pode estar deixando de ser uma empresa pública para passar a ser uma sociedade de economia mista. E aí, nessa transição, tu está abrindo o capital, quer dizer, tu já está indo no caminho da privatização”, observa o professor da UFRGS.Sobre a perspectiva do que representará Flávio Bolsonaro à frente das estatais brasileiras, Aragon entende que esse potencial governo iria “avançar sobre aquilo que o governo Jair Bolsonaro não conseguiu e a única restrição que tu tens a isso é o Congresso”. Na visão do professor, Flávio tem na sua mira as três estatais que são as “joias da Coroa”: Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.