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23 de outubro 2026

Estatais na mira: Petrobras, Banco do Brasil e Caixa podem ser vendidos no governo Flávio, avalia especialista

Estatais na mira: Petrobras, Banco do Brasil e Caixa podem ser vendidos no governo Flávio, avalia especialista Em fevereiro, ao vivo na CEO Conference 2026 do banco de investimentos BTG Pactual, o senador e então presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) afirmou que “grande parte das nossas estatais precisa ser privatizada” e disse que sua campanha iria “propor algo muito moderno” como contramedida ao “rombo do PT” em estruturas estatizadas. Flávio citou ainda um percentual: 95%. Esse seria o total de estatais da União privatizadas se dependesse dele.Oito meses depois, o tema das privatizações se tornou um assunto delicado na campanha de Bolsonaro, especialmente quando questionado sobre a possibilidade de venda da Petrobras, do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Adolfo Sachsida, responsável pela parte econômica da campanha de Flávio, foi às redes sociais para garantir que “nenhuma dessas empresas será tocada”. “Não existirão privatizações de empresas”, afirmou Sachsida.Mas o passado do ex-ministro de Jair Bolsonaro (PL) indica justamente o contrário. Sachsida fazia parte da equipe de Paulo Guedes no Ministério da Economia durante o governo Bolsonaro. Guedes que, em reunião interministerial em 2020, esbravejou que era para “vender essa porra logo”, em referência ao Banco do Brasil.O mesmo Paulo Guedes que, em 2021, ressaltou que o plano para os próximos dez anos era “continuar com as privatizações”. “Petrobras, Banco do Brasil, todo mundo entrando na fila, sendo vendido e sendo transformado em dividendos sociais”, declarou o então ministro da Economia, para quem Adolfo Sachsida trabalhava.Guedes também foi o responsável por um corte de 37,8% nas estatais em quatro anos de governo Bolsonaro, segundo dados da Secretaria Especial do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI). As principais privatizações foram da Eletrobras, da Transportadora Associada de Gás (TAG), da BR Distribuidora, da Liquigás e das docas do Espírito Santo (Codesa).Somado a isso, houve o desinvestimento nas empresas estatais que restaram, diminuindo a participação do Governo Federal no comando dessas estruturas. Sachsida esteve ao lado de Paulo Guedes em todas essas medidas de recuo da presença do Estado brasileiro.Mas não é só o passado que indica controvérsia entre o que diz atualmente e o que de fato deve fazer Flávio Bolsonaro, se eleito. No plano de governo do candidato do PL está prevista a retomada do Programa Nacional de Desestatização para avaliar “onde a presença do Estado deixou de fazer sentido”. Daniella Marques, do núcleo econômico da candidatura de Flávio, usa em entrevistas o argumento de que existem vinte estatais que geram um suposto custo de R$ 30 bilhões e que poderiam ser “tesouradas”.O professor Aragon Érico Dasso Júnior, da Escola de Administração da UFRGS e especialista em administração pública, explica o que acontece em uma privatização. A primeira distinção necessária é sobre o tipo de venda de uma estatal.A primeira forma é da concessão, como visto com frequência nas gestões de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Não é uma desestatização completa, e sim uma delegação do seu serviço para um entre privado, muitas vezes por um período determinado de tempo.A outra é, de fato, o fim da existência daquela instituição na máquina pública, que é a alienação. A alienação, segundo Aragon, traz uma injeção de capital em um período curto e fora do previsto no orçamento.Mas, o professor ressalta que dinheiro a mais nos cofres não significa maior capacidade de investimento. “Normalmente, ele [o dinheiro da venda] é aplicado em despesas ordinárias, não é investimento ou reinvestimento”, explica. “Não existe uma política de desenvolvimento a partir de privatizações. Todo mundo que fala sobre isso está mentindo, porque aquele dinheiro se exaure quase que imediatamente”.Em compensação, a função social da empresa estatal que ali existia antes da venda “desaparece”, como define Aragon. “O mercado vai ficar com aquilo que ele rende. Tudo que interessa à função social daquela empresa estatal anterior, desaparece”, comenta. “Deixa de ser um serviço público na finalidade social e passa a ser uma contraprestação financeira numa relação privada”.“Sempre que tu tiveres uma alienação, a lógica que está impregnada ali é o lucro. E o lucro, via de regra, na experiência brasileira, está associado a uma majoração de tarifa para o cidadão”, complementa Aragon, sobre os efeitos práticos de uma alienação de serviços públicos.Entretanto, há uma terceira possibilidade de negócio que não chega a ser uma privatização, mas que indica um caminho em direção à via privada: a sociedade de economia mista. Na visão de Aragon, esse modelo “já é o começo de uma privatização”.“Por que eu estou falando isso? Porque às vezes tu pode não estar privatizando a Caixa Econômica Federal, mas tu pode estar mudando o tipo societal dela. Ela pode estar deixando de ser uma empresa pública para passar a ser uma sociedade de economia mista. E aí, nessa transição, tu está abrindo o capital, quer dizer, tu já está indo no caminho da privatização”, observa o professor da UFRGS.Sobre a perspectiva do que representará Flávio Bolsonaro à frente das estatais brasileiras, Aragon entende que esse potencial governo iria “avançar sobre aquilo que o governo Jair Bolsonaro não conseguiu e a única restrição que tu tens a isso é o Congresso”. Na visão do professor, Flávio tem na sua mira as três estatais que são as “joias da Coroa”: Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal.
PetrobrasFlávio Bolsonaro declarou que as menções a uma possível venda da Petrobras sob o seu governo são uma “boataria”. Entretanto, Aragon cita que a privatização da empresa estatal é uma “demanda histórica do mercado” e que “por óbvio” está na pauta de Flávio vender a Petrobras, que já funciona sob a lógica da economia mista, visando o repasse de dividendos (lucro) para seus acionistas.Para o professor da UFRGS, a Petrobras é a “joia da Coroa” das estatais ainda não vendidas. Segundo Aragon, a empresa cumpre papel duplo na discussão da segurança nacional e no “relevante interesse coletivo”, argumento que justifica a existência de uma estatal.É importante, contudo, entender como funciona a Petrobras. Desde 1995, como explica Aragon, a empresa não tem o monopólio da exploração do petróleo brasileiro, mas ela continua tendo a preferência para a exploração de jazidas petrolíferas no Brasil. “Na prática, o que acontece é o seguinte: em qualquer jazida petrolífera no Brasil, a Petrobras tem a preferência. Se ela decidir que não quer explorar, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) vai fazer um leilão e vai possibilitar que um ente privado explore aquela jazida”, comenta.A outra parte importante da estrutura da Petrobras é sua divisão de atividades por setores. Por exemplo, TAG, Liquigás e BR Distribuidora vendidas por Jair Bolsonaro eram da empresa estatal, que tinha essas estruturas na sua carteira de ativos.É diante desta fragmentação que Flávio Bolsonaro indicou que irá explorar possibilidades de vendas e privatização. Em dezembro de 2025, quando já era pré-candidato à Presidência, o senador disse em entrevista à Reuters ser favorável à privatização de alguns setores da Petrobras.“A Petrobras é complexa demais. São vários segmentos. Tem a parte de extração, tem a parte de pesquisa, tem a parte de distribuição, tem a parte de refino. Então ela é um grande conglomerado de empresas que a gente tem que ver o que funciona e tem que continuar, o que não funciona e pode ser privatizado”, declarou.
Banco do BrasilA outra “demanda histórica do mercado” na agenda, segundo Aragon, é o Banco do Brasil. A instituição também já funciona sob a lógica de ser uma empresa mista. Para o professor, isso é um primeiro passo em direção à privatização.“Quem compra ações de uma empresa, seja qual for, está buscando o lucro. Não está pensando no desenvolvimento do país, na finalidade social. Então, o que acontece? Digamos que sejamos acionistas do Banco do Brasil ou da Petrobras, que são sociedades de economia mista. Se no final do ano o governo disser assim: ‘não vou distribuir dividendos, todo o dinheiro que a gente teve aqui eu vou redistribuir em políticas públicas’. Tu vai chiar, eu vou chiar, talvez a gente venda as ações, enfim. A gente vai reclamar porque o nosso objetivo não está sendo cumprido”, explica.Flávio não deixou claro no seu plano de governo qual será o destino do Banco do Brasil e a possibilidade de venda da estatal foi rechaçada por Adolfo Sachsida. Entretanto, Daniella Marques, mais uma vez, deixou transparecer o que a campanha vem pensando.Para empresários em evento da Esfera Brasil na cidade de São Paulo, a coordenadora do programa econômico incluiu o Banco do Brasil entre as estatais que poderiam ser vendidas após análise. Seria a conclusão de um projeto que começou com Paulo Guedes e Jair Bolsonaro.“Não adianta o Flávio Bolsonaro dizer no domingo, na hora de votar, ‘não vou privatizar Banco do Brasil e Petrobras’. Está na agenda deles a privatização”, afirma Aragon.
CaixaA Caixa, por sua vez, estaria um pouco mais atrás na lista de prioridades, segundo o professor Aragon. Entretanto, a estatal terá papel essencial caso Flávio seja eleito. E o caminho indicado é sim o setorprivado, mesmo que a venda não faça parte do processo.A Caixa se transformará no “Banco da Prosperidade” sob o comando de Bolsonaro. Ela deixaria de ser “apenas a operadora de benefícios”, como pontua o plano de governo do senador, para ajudar brasileiros a conquistar autonomia financeira “assim como os bancos privados ajudam seus clientes a construir patrimônio e realizar projetos”, conclui o documento.Para Aragon, a ideia da Caixa, um ente público, ser como um Itaú ou um Bradesco é o “domínio da lógica do privado sobre a lógica do público”. “Se o mercado é um modelo a ser copiado, é uma desvalorização, por óbvio, do público”, comenta o professor da UFRGS.
Outras estatais na miraOutras instituições públicas também estão sob ameaça caso Flávio Bolsonaro seja eleito, conforme indica Aragon. No “lote” estariam, além das “joias da rainha”, os Correios, Telebras, as docas estaduais, armazéns públicos, o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), Dataprev e o Sistema Único de Saúde (SUS).O SUS foi tema do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band. Lula questionou se seu adversário privatizaria o Sistema, o que foi negado pelo carioca que fazia sinal de negativo ao fundo enquanto o presidente respondia próximo da câmera.Mas o caminho, assim como no caso da Caixa, pode ser o emprego da lógica privada. Aragon cita o caso do sistema de saúde de Porto Alegre.O SUS ainda existe na Capital, mas a gestão de parte da estrutura foi transferida para entes privados conduzirem. “Tu para de fazer concursos, para de ter servidores públicos atuando e transfere a gestão para privados”, explica Aragon. “É uma privatização mais escondida, mas é uma privatização que transfere a gestão”.Flávio sinaliza isso no seu plano de governo. O caminho para acelerar a fila do SUS é “contratar serviços e exames na rede privada nos horários ociosos” para “usar bem o que já existe”. “Há aparelho parado enquanto gente espera meses pelo mesmo exame, e aproveitar essa capacidade é atender mais sem construir do zero”, complementa o texto.“Quando tu começa a falar desse modelo, o que tu está dizendo? Isso é desmantelar o SUS. A saúde privada era para ser complementar dentro da atuação do SUS”, ressalta Aragon.Agora, o mais ameaçado é o Correios. Na visão do professor da UFRGS, a pauta da venda dos Correios será prioritária, com “resistência menor por parte da sociedade civil” contra a sua privatização. “Os Correios eram a bola da vez do governo Bolsonaro”, relembra Aragon.Ele diz que o processo é “hegemônico”, que os governos mais progressistas conseguem voltar no tempo e reestruturar a administração pública. Essa dominância se reflete no discurso.Em junho, Flávio Bolsonaro defendeu a privatização dos Correios em entrevista à rádio mineira Itatiaia. “Os Correios têm que ser privatizados, para começar. É uma unanimidade sua ineficiência e a falta de capacidade de investimento. E temos que partir para a privatização de outras empresas também que continuam ineficientes”, declarou Flávio.Esses exemplos citados por Aragon são algumas das bolas que ficaram quicando na primeira vez em que um Bolsonaro esteve à frente do Planalto. O professor da UFRGS acredita que elas voltarão a figurar nas manchetes caso o resultado de domingo (25) seja favorável a Flávio.“Ficaram pra trás uma série de desejos por parte do governo Bolsonaro naquela época que, seguramente, voltarão no governo Flávio Bolsonaro”, afirma Aragon.
Fonte: Sul 21 / Imagem: Agência Brasil