Notícia SINASEFE IFSul

25 de setembro 2026

Do dique à pesquisa: como os candidatos ao Piratini pretendem preparar o RS para novos eventos extremos

Do dique à pesquisa: como os candidatos ao Piratini pretendem preparar o RS para novos eventos extremos As enchentes de 2024 transformaram a prevenção de desastres em uma questão central para o Rio Grande do Sul. Nos programas de governo apresentados para a eleição ao Piratini, o tema aparece associado não apenas à Defesa Civil, mas também a infraestrutura, planejamento territorial, orçamento, saúde, ciência e gestão dos recursos hídricos.Os programas de Juliana Brizola (PDT), Luciano Zucco (PL), Gabriel Souza (MDB), Marcelo Maranata (PSDB), Rejane de Oliveira (PSTU) e Priscila Voigt (UP) apresentam propostas para recuperar estruturas de proteção, ampliar sistemas de alerta e monitoramento e preparar o Estado para eventos extremos.As respostas, porém, partem de diagnósticos diferentes. Enquanto alguns candidatos concentram suas propostas na recuperação e manutenção da infraestrutura existente, outros ampliam a agenda para soluções baseadas na natureza, participação comunitária, pesquisa científica, saúde, regularização fundiária e mudanças na legislação ambiental.Entre as medidas estão a recuperação de diques, comportas e casas de bombas, construção de reservatórios, criação de parques inundáveis, sistemas de drenagem sustentável, mudanças no planejamento territorial e estruturas específicas para a resiliência da Região Metropolitana.Os programas também incorporam problemas expostos pela enchente de 2024: a capacidade de alertar a população, a continuidade de serviços essenciais, a preparação financeira do Estado para calamidades, a estrutura da Defesa Civil, a ocupação de áreas de risco e a capacidade de produzir e utilizar conhecimento científico para antecipar eventos extremos. A comparação dos planos permite notar um esforço para que a prevenção, ao menos no papel, seja tratada como uma política permanente de Estado, e não apenas como resposta à próxima emergência.Juliana Brizola propõe combinar a recuperação da infraestrutura de proteção com medidas de drenagem sustentável e infraestrutura verde. Entre as soluções estão parques lineares, bacias de retenção, jardins de chuva e pisos permeáveis.A candidata também propõe a REURB Gaúcha, um cadastro georreferenciado de ocupações, loteamentos irregulares e áreas de risco para orientar a regularização fundiária e a prevenção de desastres. O programa prevê prioridade para mulheres chefes de família. Para moradores de áreas sujeitas a inundações e deslizamentos, defende reassentamento seguro, com moradia e infraestrutura.Zucco apresenta a proteção das bacias contra cheias como um projeto estratégico. O programa prevê um inventário das estruturas existentes e manutenção preventiva e corretiva de diques, casas de bombas, canais, comportas e reservatórios. Também estabelece como diretriz não reconstruir moradias em áreas de risco e propõe parques inundáveis e uma autoridade técnica de resiliência metropolitana.Gabriel Souza propõe obras estruturantes de proteção contra cheias, financiadas pelo Fundo de Apoio à Infraestrutura para Recuperação e Adaptação a Eventos Climáticos Extremos (FIRECE), além da construção de barragens, reservatórios e sistemas integrados de irrigação.Maranata também defende a recuperação da infraestrutura existente e a criação de uma autoridade técnica de resiliência metropolitana, com participação e controle social.Rejane de Oliveira propõe um plano de obras públicas estaduais voltado à drenagem urbana e à prevenção de enchentes, com participação das comunidades afetadas. Priscila Voigt defende a reconstrução dos sistemas de proteção com participação de universidades e técnicos populares, sem contratação de empreiteiras. O candidato do PCO, César Pontes, é o único que não apresenta propostas específicas para os eventos climáticos, as cheias e a estiagem.
Adaptação climática e planejamentoAs cheias de de 2024 são utilizadas pelos candidatos para justificar diferentes propostas. Juliana menciona, entre outros aspectos, a desinformação durante o desastre. Zucco destaca a extensão territorial dos impactos.Gabriel cita danos à infraestrutura escolar e de transportes. Maranata aborda a resposta do poder público no âmbito da prefeitura de Guaíba, da qual era o prefeito. Rejane enfatiza a permanência da vulnerabilidade e os problemas na reconstrução de moradias. Priscila relaciona o desastre às políticas ambientais e urbanas.Nos programas de Juliana, Zucco, Gabriel e Maranata, a adaptação às mudanças climáticas aparece associada ao planejamento territorial e ao zoneamento ecológico-econômico, mas com instrumentos diferentes.Juliana enfatiza pesquisa científica, infraestrutura verde e qualificação técnica. Zucco combina prevenção, manutenção de estruturas e preparação financeira e administrativa. Gabriel associa adaptação à gestão das bacias e à infraestrutura hídrica. Maranata propõe uma estrutura metropolitana de resiliência.Rejane propõe a reversão de alterações feitas no Código Estadual do Meio Ambiente durante a gestão de Eduardo Leite (PSD). Na mesma linha, Priscila relaciona a crise climática à flexibilização da legislação ambiental e defende a revisão dessas medidas.
Proteção contra as cheias A preparação para eventos extremos também aparece na organização da Defesa Civil e dos serviços públicos. Juliana propõe a profissionalização do quadro técnico da Defesa Civil, com meteorologistas, geólogos, oceanógrafos e engenheiros. O programa prevê ainda uma rede gaúcha de pesquisa sobre eventos extremos, articulada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e pelas universidades públicas e comunitárias.A candidata também propõe uma Força Estadual de Resposta Rápida do SUS para atuar em emergências sanitárias e desastres socioambientais, além da adaptação climática das unidades de saúde. Outra medida é destinar prioritariamente recursos da publicidade estatal para ações permanentes de educação, prevenção e informação sobre eventos extremos.Zucco propõe ampliar a rede de monitoramento hidrometeorológico e os sistemas de alerta, com mensagens de texto, Cell Broadcast e sirenes. O programa também prevê planos de continuidade para serviços essenciais, como abastecimento de água, energia, telecomunicações, saúde, educação e transporte.O candidato propõe ainda mecanismos financeiros específicos para situações de calamidade, como reservas, fundos, seguros e linhas de crédito contingentes, para reduzir o impacto dos desastres sobre o orçamento estadual.Gabriel Souza prevê o fortalecimento da governança climática da gestão Eduardo Leite (PSD), da qual é vice-governador, além da modernização da Defesa Civil e do aprimoramento do monitoramento das 25 bacias hidrográficas.Maranata propõe planos de contingência para serviços essenciais e sistemas de monitoramento hidrológico. Rejane defende um sistema público de alertas organizado por bacias hidrográficas e a participação da população na elaboração dos planos de prevenção.
Das chuvas à secaAs enchentes atingiram cerca de 95% do Estado. Ao final do levantamento, 95 municípios estavam em situação de calamidade pública e 357 em situação de emergência. Mas a chuva não é único evento extremo que atinge o território gaúcho.A estiagem também aparece nos programas como parte dos eventos extremos que exigem políticas específicas. Juliana, Zucco, Gabriel e Maranata listam medidas de segurança hídrica, como ampliação de reservatórios, melhorias na irrigação e cisternas para a agricultura familiar.Juliana propõe ainda buscar junto à União a prorrogação, por três anos, da suspensão do pagamento da dívida estadual e a manutenção do Funrigs pelo mesmo período, com recursos destinados a projetos de sustentabilidade ambiental e irrigação. O programa da pedetista prevê também protocolos de proteção e resgate de animais em desastres.Rejane propõe medidas de apoio aos agricultores atingidos pelas estiagens, incluindo perdão de dívidas e diversificação da produção agrícola, sem uso de transgênicos.
O problema da descontinuidadeAlguns programas ampliam a agenda climática para áreas que não costumavam ser diretamente relacionadas às obras contra enchentes. Juliana incorpora saúde, pesquisa científica, regularização fundiária e comunicação pública à política de adaptação. Zucco apresenta a transformação da matriz energética e da bioeconomia da Metade Sul como parte de uma proposta de transição energética.A diferença entre as propostas aparece também na forma como os candidatos tratam o território. Enquanto parte das medidas está voltada à proteção física contra a água, outras procuram reduzir a exposição ao risco por meio de planejamento urbano, restrição à ocupação de áreas vulneráveis e recuperação de ecossistemas.Para o engenheiro geólogo Sérgio Cardoso, ex-presidente do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Rio Gravataí, um dos problemas está justamente na descontinuidade das políticas públicas de planejamento.Cardoso defende a retomada de estratégias previstas na Constituição estadual de 1989, que organizou o planejamento dos recursos hídricos a partir das bacias hidrográficas. Segundo ele, estruturas como os Comitês de Bacia e os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) perderam espaço nas decisões governamentais.“A conta chegou, só que quem está pagando são famílias que perderam seus bens materiais. Muitas delas nunca mais vão recuperar o que perderam, por total falta de capacidade de planejamento de Estado”, afirma.O engenheiro cita ainda a interrupção de projetos de drenagem previstos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), articulado pelo governo federal em parceria com o governo de Tarso Genro (PT), e a extinção de órgãos como Cientec, Metroplan e Fundação Zoobotânica durante a gestão de José Ivo Sartori (MDB).“De 1994 para cá, passados mais de 30 anos da legislação, o Estado não avançou no planejamento. Ele acabou desestruturando as estruturas que tinha de planejamento, como Cientec, Metroplan, Fundação Zoobotânica. E começou a não dar bola para um ativo chamado água”, avalia.Cardoso também aponta a perda de capacidade técnica do Estado. Segundo ele, a redução das estruturas permanentes de planejamento contribuiu para a necessidade de contratação emergencial de técnicos após as enchentes de 2024.“O Estado mínimo se provou tão mínimo que não havia nem técnicos para contratar para fazer projeto”, afirma.Para o engenheiro, o problema também está na duração dos ciclos políticos. “As políticas viraram políticas de gestão. De quatro em quatro anos, temos um governador que entra e tem a solução mágica. A solução não está em viajar o mundo todo, ir para China, Holanda, Alemanha”, diz.
Uma conexão ainda limitada com a crise climáticaEmbora os seis programas apresentem medidas para enfrentar enchentes e estiagens, a associação entre os eventos extremos e a mudança climática aparece de maneira desconectada. Essa é uma das questões observadas pela pesquisadora e professora Fiorenza Zandonade Carnielli, do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Em conjunto com a professor da Unipampa Sara Feitosa, ela coordena uma pesquisa que acompanha a comunicação eleitoral sobre as mudanças climáticas e as enchentes.A análise da campanha para o governo estadual realizada na primeira semana de propaganda, entre 28 de agosto e 4 de setembro, considerou o Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral (HGPE) e o Instagram dos quatro candidatos mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto naquele período (Juliana, Zucco, Gabriel e Maranata).Mesmo em uma semana voltada principalmente à apresentação dos candidatos, os fenômenos climáticos apareceram nas campanhas dos quatro concorrentes analisados. Para Fiorenza, porém, a abordagem foi uma “problematização fraca”, porque os acontecimentos registrados no território não foram relacionados, de maneira explícita, ao contexto mais amplo das mudanças climáticas.“Em alguns casos é classificado, expressamente, como catástrofe ou tragédia pelos candidatos, então esse fenômeno que acontece no território não é conectado, ou pelo menos nessa primeira semana não foi, ao fenômeno geral da mudança climática”, afirma.A pesquisadora ressalva que se trata de uma análise preliminar, limitada à primeira semana da campanha, período em que é comum que os programas estejam mais concentrados na construção da imagem dos candidatos.Em pesquisa publicada neste ano, Fiorenza, Feitosa e Janaína Gomes – professora da Universiade Federal de Santa Maria – analisaram 110 programas televisivos das candidaturas de Juliana Brizola, Maria do Rosário e Sebastião Melo na eleição municipal de Porto Alegre de 2024. O estudo identificou redução do espaço dedicado às enchentes entre o primeiro e o segundo turno e ausência de conexão entre o desastre e as mudanças climáticas.“Historicamente temos constatado que as campanhas eleitorais, de modo geral, têm reduzido o tempo para a abordagem dos temas de política pública e aumentado o tempo e os esforços para as abordagens relacionadas ao que chamamos de imagem pública”, pondera Fiorenza. Ela observa que, na análise da disputa pela Capital em 2024, o tema das enchentes perdeu espaço ao longo da campanha, movimento que pode se repetir no pleito desse ano.
Fonte: Sul 21 / Imagem: Defesa Civil RS