Na última sexta-feira (25), o Sul21 mostrou que, entre candidatos ao Senado Federal e ao Piratini, foram investidos até agora pelo menos R$ 2,6 milhões em wind banners. As novas “estrelas” das campanhas eleitorais se proliferaram por todo o Rio Grande do Sul, com uma única esquina em Porto Alegre reunindo cerca de 100 dessas bandeiras. Mas, o que acontece com esses materiais ao fim das eleições?Os eleitores já estão acostumados com o chão tapado de santinhos de candidatos no domingo de eleições — que depois são recolhidos pelas equipes de limpeza urbana — , mas com os wind banners é diferente. O descarte, se feito de forma incorreta, oferece riscos.A reportagem procurou algumas das candidaturas que mais gastaram com esse tipo de propaganda, segundo o levantamento do Sul21. A campanha de Manuela d’Ávila (PSOL), que investiu R$ 387 mil em wind banners, ressaltou que tem um “forte compromisso com a sustentabilidade”. Portanto, irá doar os materiais. A campanha de Luciano Zucco (PL), líder entre candidatos ao Governo do Estado com R$ 447 mil, também afirmou que irá doar os materiais.Já a equipe de Franciane Bayer (Republicanos), que concorre à Câmara dos Deputados e investiu R$ 148 mil, informou que, ao fim do período eleitoral, dará a “destinação ambientalmente adequada” para os materiais. A prioridade é a “reutilização sempre que possível” e a “reciclagem dos materiais que não puderem mais ser aproveitados”.Mas, como funciona a reciclagem ou descarte adequado desse tipo de resíduo? Ruth Santana, professora no Departamento de Materiais da UFRGS e coordenadora do Núcleo de Sustentabilidade da universidade, trabalha com o descarte de polímeros como o poliéster, tecido sintético preferido para os wind banners.“Esses wind banners são formados por bandeiras de tecidos sintéticos — sendo o mais comum o poliéster — e hastes de alumínio. Todos esses materiais são recicláveis”, garante a professora. “No caso dos tecidos, o problema é o descarte incorreto que pode ocasionar impacto ao meio ambiente”.Ruth explica que o poliéster é uma família de polímeros, materiais derivados do petróleo como o PET (Politereftalato de etileno). O mesmo plástico das garrafas e embalagens. A fibra do poliéster é feita com a fusão do PET reciclado.“Quantas camisetas você encontra no shopping que na etiqueta diz 100% poliéster?”, exemplifica a professora da UFRGS sobre a proliferação do poliéster no mercado.As vantagens desse material são a resistência e a versatilidade. Ele pode ser reprocessado para ter um novo uso.“O PET é um heteropolímero porque, na molécula, não tem só carbono e hidrogênio; tem oxigênio. Isso faz com que esse polímero, quando reprocessado, tenda a degradar”, explica Ruth. “Mas reciclar é possível”, reforça.A degradação do poliéster, entretanto, se dá pela perda de suas propriedades, especialmente na resistência mecânica, e não oferece risco ambiental. O impacto ambiental, na verdade, está embutido no processo de descarte desse tecido. “O problema é esta quantidade [de wind banners] e destiná-los da forma certa, que não sejam descartados da forma incorreta ou que fiquem na rua”, frisa a professora.“Lamentavelmente, quando descartados de forma incorreta, eles vão parar onde? Bueiros, rios, mares e oceanos”, afirma Ruth Santana.A candidatura de Luciano Zucco também informou à reportagem que os materiais dos wind banners serão reaproveitados. Os panos e as hastes de ferro serão doados, enquanto as pedras que sustentam a bandeira irão para um projeto comunitário que as utilizará em ações de pavimentação. “Caso não haja interessados, [os materiais] serão devolvidos aos fornecedores para que façam o reaproveitamento ou descarte correto”, complementa a nota.Sandro Leote, diretor do projeto social Fome de Aprender, está buscando as campanhas para doação das pedras. A entidade serve almoços em uma biblioteca na Restinga há seis anos. São entre 150 e 180 almoços diários na cozinha solidária.O Fome de Aprender tem outros projetos no seu guarda-chuva, como a comunidade terapêutica Caverna de Adulão, um centro de recuperação para dependentes químicos. O local, segundo Leote, é um sítio na Restinga com uma estrutura problemática.O espaço está sendo reformado, mas precisa de um piso novo e calçamento nas ruas de acesso. Com isso, Tinga, ex-jogador da dupla Grenal e criador do Fome de Aprender, fez um apelo nas redes sociais para que as campanhas doassem as pedras à entidade.“Um monte de candidatos já se propuseram a doar”, comenta Sandro, a respeito da repercussão do vídeo de Tinga. Na visão do diretor, mesmo que a quantidade de pedras não esteja definida, ele acredita que será possível calçar o sítio e outras ruas da Restinga.Sandro explica que procurou pessoas que trabalham com calçamento para fazer um “encaixe” de cada base no chão de areia para melhorar o deslocamento no bairro. “Nessa época de chuva, fica bem complicado [o acesso]”, comenta.Agora, é aguardar as doações por parte das campanhas e montar a estrutura, com ajuda de caminhões para o transporte. “Já estamos nos organizando para isso”, garante Sandro Leote.A professora explica que o descarte correto do poliéster não é complicado. Os materiais devem ser levados para unidades de triagem que trabalhem com esse tipo de tecido. Entretanto, aqui entra o desafio do volume. Apenas em uma fábrica de Porto Alegre procurada pelo Sul21, já foram usados 215 mil metros de tecido.“Tem um problema que é: essas unidades de triagem têm que ter clientes que comprem [o produto reciclado]. No Rio Grande do Sul, temos empresas que reciclam fibras de tecidos sintéticos”, salienta.