Ao falar de educação, há um conhecido provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Essa sabedoria ancestral nos ensina que o cuidado e o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes não são responsabilidades isoladas de uma família, muito menos de uma mulher sozinha. São tarefas coletivas, que envolvem comunidade, escola, Estado, redes de apoio, vínculos afetivos e compromisso social, além do acolhimento e a segurança, tendo em vista que a troca de saberes enriquece o aprendizado e a formação dos sujeitos de direitos.É a partir dessa compreensão que o SINASEFE construiu, em 2022, o projeto Sinasefinho: uma política sindical voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes durante as atividades da entidade, garantindo não apenas um espaço seguro e qualificado para elas e eles, mas também condições reais para que mães, pais e responsáveis possam participar da vida sindical. O Sinasefinho não nasceu como favor, improviso ou concessão, mas da organização coletiva de muitas mulheres do nosso sindicato, que há anos denunciam uma contradição profunda: não há democracia sindical plena quando mulheres, especialmente mães e responsáveis pelo cuidado, são empurradas para fora dos espaços de decisão porque não existem condições materiais para sua permanência. Por isso, o Sinasefinho é mais do que uma estrutura de apoio. Ele é uma política de gênero: política de permanência, de cuidado coletivo e também uma política formativa, porque reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos e compreende que o sindicato pode e deve ser um espaço educativo, afetivo, democrático, antirracista, feminista e comprometido com a justiça social.Nós, da Coordenação de Políticas para as Mulheres compreendemos que o Sinasefinho é um marco político importante na história do SINASEFE e materializa uma política de gênero fundamental, enfrentando, de forma concreta, uma das bases mais persistentes da desigualdade de gênero: a responsabilização quase exclusiva das mulheres pelo cuidado. Historicamente, o patriarcado tentou limitar a presença das mulheres nos espaços públicos, políticos e de poder, atribuindo a elas o lugar do privado, da casa, da maternidade solitária e da renúncia. Ao construir o projeto, nossa organização coletiva propiciou não apenas o garantir um espaço qualificado aos nossos filhos e filhas, mas acolher as mães trabalhadoras e militantes, fazendo o enfrentamento direto às desigualdades de gênero em suas estruturas. Quando o sindicato garante um espaço como o Sinasefinho, ele afirma, na prática, que a militância das mulheres importa, que a presença das mães importa e, que os filhos e filhas da classe trabalhadora não são obstáculos à organização política já que o cuidado não pode ser usado como mecanismo de exclusão.Entretanto, apesar da importância inquestionável do Sinasefinho, temos assistido, desde a sua criação, ataques e questionamentos sobre a garantia da participação das crianças e adolescentes que acompanham suas mães, pais e/ou responsáveis nas atividades sindicais. que, muitas vezes, aparecem disfarçados de preocupação administrativa, debate financeiro ou organização interna. Eventualmente ouvimos frases e perguntas ou proposições como “é necessário limitar quantidade de filhos para as mulheres levarem”, “crianças e adolescentes têm direito à diária?”, “quem deve custear a ida das crianças e adolescentes: a seção ou o/a sindicalizado/a?”, “seu filho não têm pai ou outra pessoa que você pode deixar?” e etc. São inúmeros os absurdos acumulados e ouvidos ao longo desses quase 4 anos de existência do Projeto, que reforçam um caráter machista e patriarcal a uma política sindical que é voltada, na grande maioria das situações, a restringir a participação política das mulheres nos espaços sindicais, além de atravessá-las de práticas de silenciamento, constrangimento e violência política nos espaços sindicais. Essas falas não são neutras. Elas carregam uma concepção de mundo, ainda que nem sempre seja assumida abertamente, reforçando a velha lógica patriarcal que os movimentos feministas denunciam há décadas: a ideia de que a participação política das mulheres é sempre condicionada, tolerada, vigiada ou secundarizada. Quando se questiona a presença das crianças sem questionar a estrutura que sobrecarrega as mulheres, o que se produz é constrangimento. Quando se trata o cuidado como problema individual, o que se reforça é a desigualdade. Quando se transforma a maternidade ou a responsabilidade familiar em impedimento para a militância, o que se pratica é exclusão política. É preciso dizer com firmeza: o Sinasefinho não é gasto. Não é privilégio. Não é benefício particular. Não é concessão às mulheres.Infelizmente, inúmeras vezes estes questionamentos aparecem fundamentados em “debates administrativos”, “contenção de gastos” ou “organização interna”, quando na prática, atingem diretamente a permanência das mulheres nos espaços de decisão. Não podemos naturalizar esse tipo de postura, pois são extremamente danosas falas de sindicalistas que dizem que “os filhos deveriam ficar em casa”, pois o que está sendo colocado em prática é exatamente uma estrutura patriarcal que os movimentos feministas denunciam há décadas. O Sinasefinho é uma política coletiva de enfrentamento às desigualdades que impedem a participação plena de trabalhadoras e trabalhadores nos espaços sindicais.Diante disso, reforçamos a defesa que o Sinasefinho materializa princípios fundamentais do nosso Sindicato, como a garantia da participação política das mulheres, pois permite condições materiais e objetivas para que as mães e responsáveis sindicalistas e trabalhadoras possam intervir e participar nos espaços sindicais sem a sobrecarga do cuidado, que passa a ser coletivizado. Além disso, o projeto tem uma dimensão de política sindical formativa e também garante a construção de crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, rompendo a ideia que eles são entraves à nossa participação política, reiterando que o sindicato deve ser também um espaço formativo para a classe trabalhadora, seus filhos e as novas gerações.Nós, da Coordenação de Políticas para Mulheres, enfatizamos nosso compromisso em seguir defendendo o Sinasefinho como um projeto vivo e em constante transformação, que exige a construção de políticas de financiamento e que se amplie e se institucionalize em todas as instâncias do SINASEFE. Reforçamos que não aceitaremos mais que o espaço sindical seja excludente e que o Sinasefinho seja pautado com questionamentos que visam cercear o direito e a participação efetiva e plena das mulheres nos espaços políticos de tomadas de decisão.Por fim, apontamos que para derrotar o fascismo, a extrema direita é defender a democracia é necessário construir um sindicato que seja cada vez feminista, diverso e acolhedor para todas, todos e todes. O Sinasefinho não é “gasto”, “privilégio” e muito menos concessão, pois se trata de uma política de permanência, acolhimento e combate às desigualdades que impedem mulheres de estarem nos espaços de decisão. Defender o Sinasefinho é defender a participação das mulheres no sindicato em condições dignas.Não podemos naturalizar práticas que tentam silenciar mulheres por meio do constrangimento, do desgaste emocional e da intimidação pública!Não aceitaremos retrocessos no direito das mulheres de ocupar, construir e transformar o movimento sindical!Viva o Sinasefinho! Viva a luta das mulheres!