A fé é um discurso que tem aparecido cotidianamente nos perfis públicos em redes sociais dos candidatos à presidência. Entretanto, uma consulta aos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra o oposto: enquanto os perfis e recortes de vídeos dos presidenciáveis nas redes sociais são recheados de referências religiosas, os textos oficiais praticamente não mencionam o tema.Para essa reportagem, o Jornal da Universidade conferiu como os candidatos à Presidência da República nas Eleições 2026 tratam o tema da religião em seus respectivos planos de governo. A apuração foi embasada nos planos registrados no TSE, e as informações coletadas foram debatidas com pesquisadores da UFRGS e do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), grupo de pesquisa vinculado à Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).O fenômeno chamou a atenção do antropólogo Eduardo Dullo, vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS, ao ser questionado sobre a distância entre a fé exposta nas redes sociais e o silêncio dela nos planos de governo. Para ele, o problema não é exatamente religioso, mas revela algo mais amplo sobre o lugar que esses planos ocupam atualmente na política brasileira. “Talvez os planos de governo não estejam recebendo grande importância por parte dos próprios candidatos, pois o lugar em que as manifestações do que eles querem, pelo que eles lutam, o que eles estão buscando aparecem com mais força nas redes”, diz. Ele lembra que quase nenhum plano de governo desta eleição dedica espaço à pauta ambiental, sinal, segundo ele, de que os documentos formais perderam peso como vitrine política, superados pelo Instagram, pelo TikTok e pelo WhatsApp.Há, porém, uma exceção que passa quase despercebida. O plano de governo da chapa Romeu Zema e Eduardo Girão (Novo), batizado de “Plano Implacável”, inclui, na seção sobre Educação Básica, a proposta de “promover a liberdade de escolha das famílias na Educação Básica, estimulando parcerias com o setor privado, comunitário, filantrópico e confessional”. A palavra “confessional” é o único ponto de contato explícito entre religião e um plano de governo registrado no TSE nesta eleição, mas aparece revestida de linguagem técnica da política educacional, não como discurso de fé. É um indício de que a religião não está de fato ausente dos documentos formais: ela aparece disfarçada, codificada em termos que evitam o desgaste de um apelo religioso direto.